QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Eu não quero mais me magoar





´´Eu queria voltar a acreditar``, essa foi a frase que ouvi, logo pela manhã, e me chamou a atenção.  E eu fico pensando quantos de nós queremos voltar a acreditar no outro, no companheiro, no amigo.  Realmente, relacionar-se não é nada fácil.

Estamos vivendo uma grande safra de corações quebrados. Mas, ao mesmo tempo que digo isso, sei que em todo tempo, existiram corações quebrados.  No entanto, o que me trouxe até aqui foi o antes e o depois de quando nosso coração é espatifado. Ao que me parece, esses são os pontos chaves da questão.

Nascemos com coragem. Somos seres corajosos desde o nascimento, e isso é muito perceptível quando somos crianças. Basta que observemos a quantidade de vezes que caímos, e ainda assim, corremos desesperadamente por qualquer coisa ou por nada mesmo, apenas pela diversão e desafio. A nossa coragem pueril nos faz colher raladuras, hematomas e, para aqueles mais atrevidos ainda, algum corte que nos leva a ter que passar por suturas. A coragem que temos quando criança é admirável. A queda que sofremos na semana passada não nos impede de correr novamente. A gente se atira mesmo. Mas, não é assim que acontece quando crescemos. Realmente, nascemos com coragem, mas aprendemos a ter medo, e o medo muda tudo. O medo se aprende. A coragem, não.
O grande problema de termos sido magoados, desrespeitados e não amados como merecíamos é porque muitos de nós levamos conscientemente ou não, essas experiências negativas para o próximo relacionamento. Ficamos com medo. Então, passamos a nos monitorar o quanto podemos dar ao outro, seja no amor, seja na confiança, seja no respeito. Construímos, então, um relacionamento medido, negociado na moeda ´´só dou, se me der; só faço, se fizer``, e com isso, expandimos nossa experiência desastrosa para outros corações, outras vidas. Na verdade, apesar de não querermos, alargamos esse efeito dominó   amoroso em nossa   vida por muito mais tempo, ainda que a pessoa que nos fez passar por tudo isso, já tenha ido embora há séculos.

É fato que qualquer experiência pode nos trazer crescimento, aprendizado. Mas, aprendizado e crescimento significam justamente a busca por novos caminhos, novos interesses para conduzir a novos resultados, e talvez seja aí, o pulo do gato, como chamam. Pois, desenhar um novo padrão do que se quer é dificílimo, e quando se consegue, ainda temos que deixar as lembranças negativas do passado, no passado. É óbvio que não estou dizendo que devemos nos atirar a qualquer um sem cuidados, mas, observe que se previamente nos condicionamos a querer algo, de cara, já diminuímos as incidências de algumas coisas que não desejamos. O interessante disso tudo é que nenhum relacionamento é uma receita de bolo, ok? Ou seja, ainda que você faça tudo certo, acredite, pode dar errado, muito errado mesmo. Mas, sabe aquilo que você, eu, e todos nós sabemos de cor e salteado? Sim! Isso mesmo! Que amar é um risco? Pois é! Amar é um risco tremendo, então, ainda que você faça seu melhor, algo pode acontecer, mas isso não é sua culpa! Compreenda que você fez o seu melhor.

Um dia, você acreditou em alguém com pureza e ingenuidade. Também amou.  Infelizmente, decepcionou-se tanto que redesenhou para si o padrão que não queria que existisse no outro. E você errou quando fez isso, e não quando amou, entende? Isso foi o aprendizado que obteve? Não. Isso foi o medo! Foi o medo que enclausurou você, e enclausura a tantos de nós, justamente para aceitar que o ´´menos`` ou o ´´mais ou menos`` é o que realmente existe, e nos fazer acreditar que ficar com um patamar mediano já é de bom tamanho. O medo é uma armadilha tremenda. Ele reduz nossas capacidades, oportunidades, qualidades, exigências, sonhos e esperanças. O medo não nos deixa ser crianças... A gente nunca mais corre porque temos medo de ralar o joelho.

´´Eu queria voltar a acreditar`` é o que diz um coração espatifado por outro, e por mais que esse outro já não mais seja presente, ele ainda vive nesse coração. Como? As raladuras sararam, mas além das cicatrizes, o medo se instalou.


Por Eliane Vale.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Adaptar-se é morrer







E de tanto viver imersa num lamaçal pútrido,
habituei-me à imundície, aos detritos e restos.

Adaptei-me
acomodei-me ao inóspito, de tal forma,
que minha visão se demorou turva
e somente pude, a isso me atentar,
quando ratos e insetos passaram a transitar sobre os meus lençóis.

Por Ana Karla Farias.

quarta-feira, 30 de março de 2016

A escolha




Quando fazemos escolhas e os céus nos ouvem
Quando fazemos escolhas e a luz e a escuridão são opções
Diga-me, diga-me: 
Qual você escolherá?
Qual você escolheria?
O sol clareia nossas cabeças, campos e vales
Ilumina as florestas, nossas mentes e tudo o que há
Mas, diga-me, diga-me: Qual você escolheria?
Qual você escolherá?
Porque de outro modo, está a lua iluminando toda escuridão
Entrando nos bosques, pântanos e corações
Mas, diga-me, DIGA-ME: Qual você escolheria?
Qual escolheria?
O sol pode queimar com seus raios intensos e queimará cada pele, cada centelha de vida
A lua penetra com toda energia e irradia força, vibração.
Eu só quero saber, diga-me, DIGA-ME: Qual você escolherá????
Qual você escolheu?
Qual você escolheria???
Noite ou dia???
Noite?
Dia?
Primeiro, noite.
Depois, dia.
O que seria?

_ Eliane Vale

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

APENAS MAIS UM GOLE




Ela sempre trazia a minha cama, uma taça de um líquido insípido
Nunca soube ao certo o que era
Não ousei perguntar
De um modo tão terno e sutil, ela me ordenara a beber
Eu somente obedecia.

Comecei a degustar com parcimônia,
somente contidos goles
Gra-du-al-men-te estava entorpecido
Não poderia dizer que estava bêbado
Não! Aquilo não era o efeito narcotizante de álcool
Eu estava sóbrio, mas ao mesmo tempo, ébrio.

-Bebe! Resta apenas um copo
Ela proferia em tom de autoridade
Não fiz objeções, não quis relutar
Virei o copo e tomei até a última gota.

Senti que algo em mim esvaecia,
deixava de pulsar.
Cianureto, arsênico...
Uma espécie de veneno parecia arrancar-me a vida.

Quando estava estendido sobre a cama,
feito um moribundo.
A tez pálida, os lábios arroxeados,
ela se aproxima e sussurra em meu ouvido:
- Não estás morrendo, só estou matando o que havia de mim em ti.



Por Ana Karla Farias.







sábado, 23 de janeiro de 2016

IRRACIONAIS





Irremediavelmente as feras possuíam muitas peles
Todas elas cortavam-se e gruíam
Os bichos eram vivos
Os monstros nasciam pela manhã
E os céus escureciam à tarde
E eu lamentava copiosamente por aqueles animais
Eles não tinham redenção:

Eram animais, humanos e bestas.


Por    Eliane Vale.



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CATARSE DO AMOR





Quando o amor invadir e quiser uma resposta rápida e precisa qual fosse uma lâmina afiada
Eu digo:
AVANCE!
AVANCE!!
Essa pode ser a sua última chance de cortar os pulsos.
Avance!!
Avance!!
A dor é algo que faz o ser humano incrivelmente forte.

E se o amor chegar e exigir de você que os castelos sejam desfeitos
Eu digo:
AVANCE!!
AVANCE!!
Derrube as estruturas.
Porque se for amor, se é amor, ele vai te derrubar por inteiro até lhe fazer outra pessoa, até matar você, arrancar seu ar e depois soprar uma nova alma em você.
Avance, garoto, avance garota!!!

E se no ar o choro e o grito soarem, grite mais forte, chore mais forte

Porque se for amor, se é amor, ninguém pode escapar!


Por Eliane Vale

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

NADA TÃO ASSASSINO





Vazio mata 
Pensadores,
Solitários,
Amantes e amados

Vazio mata
Seres abstratos,
Temores
E sombras do passado

Vazio mata
Almas, dores
E amores nunca experienciados.


Eliane Vale

MINHA PEQUENA DÓROTTY









Boneca de pano,
Derretes a pele ou algo mais profano?
A que te permites costurar?
Chita, membros ou espasmos no ar?


Boneca de pano,
Porque em ti há tantos retalhos?
Não compraste tecido inteiro, apenas frangalhos?


Boneca de pano,
Não te atrevas a esta encenação macabra
Não sejas de ti uma escrava


Boneca de pano,
Quer nos poupar desta fonte divinal?
Por que aprisionar um animal tão espiritual?

Boneca de pano,
Eu quero sua alma,
A sua carne infernal.

Eliane Vale

domingo, 3 de janeiro de 2016

Eu só queria lhe confessar uma coisa



Eu nunca fui boa no manejo com as palavras faladas. Perdi as contas de quantas vezes quis dizer a um amigo o quanto sua companhia era valiosa e regeneradora para mim e o vi partir sem que ele não ouvisse isso de meus lábios, talvez supusesse o quão ele era importante aos meus olhos, mas o véu da incerteza jamais fora rasgado.

Já com os amores, idem. Não que eu seja fria e insensível aos sentimentos humanos, não! Eu sou manteiga derretida! Contudo, impera em mim o bloqueio para proferir certas coisas. Toda vez que tentei vomitar o que, de fato, sentia, restou inútil. Balbuciava as palavras, mas em som inaudível. Quando elas tentavam sair e produzir sons, parecia que uma fuligem se formava em minha boca e eu engolia as palavras em meio à saliva.

Após sete anos de relacionamento afetivo com Filipe, iremos casar daqui a uma semana. Estou com uma sensação de dever cumprido, ele, por sua vez, está deslumbrante. Nem me recordo da última vez em que o vi tão feliz. Talvez, quando engatamos o namoro, ele se apoderou de tamanha alegria. Bastava olhar pro seu sorriso de onde emanava um clarão que respingava em mim.

Os preparativos estavam em ordem. Contratamos o buffet, o cerimonialista, adornamos a praia onde a cerimônia será realizada, compramos as alianças, encomendamos o bolo confeitado, os bem-casados, confeccionamos os convites, compramos as flores. Está tudo perfeito, lindo! Filipe encarregou-se de tudo, por ser empresário no ramo de produção cultural, ele tem mais acesso a algumas pessoas especializadas na organização de festas.

Eu estava tão nervosa. Era tanta gente comentando que o meu grande dia estava na iminência de chegar. Minha agenda, então, tumultuada como nunca antes. Alguns jornais de circulação local queriam fotografar  "a noiva do ano”, a noiva do empresário Filipe Albuquerque. A pressão por carregar esse aposto me dava um certo arrepio. Por vezes, sentia que era uma carga desproporcional para que eu suportasse. Daqui a uma semana, a alta sociedade de Pasárgada iria conhecer a tão profanada noiva do seu filho mais ilustre.

Eu tinha um noivo maravilhoso, bonito, bem-sucedido e apaixonado. Eu era um ser agraciado realmente. Minhas amigas comentavam que seria o casamento dos sonhos de qualquer garota.

O tempo transcorreu e faltam apenas três dias para o casório. Fui rever Filipe que havia feito uma rápida viagem de negócios, estava me contorcendo de saudades. Quando adentrei em seu escritório, avistei Filipe, trajando um terno desenhado por um dos mais caros estilistas do país. Como sempre estava impecável. O cabelo alinhado, a gravata de tecido fino, os sapatos reluzentes e um sorriso narcotizante de quem veio diretamente do monte Olimpo, na mitologia grega. Ufa, que homem!

Andei treinando algumas palavras para enfim destiná-las ao meu noivo, afinal, o grande dia estava para chegar. Minhas mãos tornaram-se frias e eu estremecia por dentro. Como era dificultoso para mim, desatar o nó na garganta que eu carreguei por uma vida inteira. Mas, eu respirei fundo e prometi a mim mesma que não iria falhar com Filipe como o fiz com os outros que tanto marcaram meus dias.

Eu vim repetindo, durante o caminho, as palavras certas a serem proferidas. Quando chamei seu nome e ele me fustigou com aquele olhar dionísico que tanto lhe era peculiar, eu soltei o que estava entranhado.


- Eu precisava lhe confessar uma coisa, agora que estamos a três dias do nosso casamento. Eu lhe peço perdão por ter sido uma pessoa tão calada, ter silenciado quando deveria falar. É que eu não sou boa em externar o que sinto, mas nem por isso, sou insensível o quanto parece. Filipe, EU NÃO TE AMO. E eu nunca fui uma moça casaidora. Destas que se sentem completas por ter encontrado um marido. Muitas mulheres vivem à procura de um cara que as façam felizes. Mas, eu descobri que é vã a tentativa de procurar pela felicidade, porque eu a encontrei em mim mesma. Parece uma contradição dizer isso, logo eu, mas eu descobri que SINTO muito.


 por Ana Karla Farias.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Nessa vida, o que diz seu coração?


Quando criança imaginamos e desejamos inúmeras coisas. É fácil todas elas. Ser astronauta ou bombeiro tem o mesmo grau de dificuldade e, sendo criança, o grau é quase nenhum. O que basta mesmo é o desejo ardente no peito de dizer ´´quando crescer, quero ser ...``

Contudo, ao crescermos, passamos por situações que nos fazem esquecer essa criança dócil que havia em nós. E com isso, tornamo-nos arredios e fiéis, não aos nossos sonhos mais íntimos e genuínos, mas fiéis ao fluxo do mundo, às tendências das correntezas. Por fim, quando nos perdemos por completo, fazemos parte da média, isso mesmo, da média das pessoas que pouco vivem ou pouco sonham; pouco desejam ou pouco se arriscam. Nesse momento, matamos o nosso coração e toda a capacidade de ser quem desejamos ser; toda a capacidade de sermos aquele para o qual realmente viemos para ser.

Muitos de nós não somos o que queremos ser. Pensar que morreremos e perderemos a única oportunidade  de ser tudo o que um dia nosso coração fez bater é algo desastroso.
Mas se você realmente quer imaginar isso, quer imaginar o quanto isso pode ser fatal, pense exatamente agora que você não viverá para sempre, e que irremediavelmente, seu último dia chegará. 



Neste exato momento, o arrependimento e a tristeza por não  ser ou fazer o desejo de seu coração lhe atormentará. Você não tem mais tempo. Todo o tempo que você achou que tivesse era uma armadilha de sua mente: você não tinha todo o tempo do mundo. Então, sob essa perspectiva, aproveite agora o que há de mais verdadeiro no seu coração. O seu mundo é o que há nele.  Esqueça a média das pessoas que fazem o que sempre fazem, que dizem o que sempre dizem. Não! Isso não é caso de rebeldia. Apenas, faça e sinta o que existe no seu coração. Não há como ser verdadeiro com os outros, se passou a vida inteira mentindo para si. Comece do zero. Comece o ano sendo você, porque isso pode lhe provocar desconforto e medos, mas jamais será uma mentira ou covardia.

Da paixão



A sua pele era minha segunda roupa que me cobria com lascívia suficiente para que o mundo se acabasse ali mesmo, apenas com nós dois. 

Um mundo ilimitado por dogmas ou códigos. Era de pura paixão que a nossa cadência sensual se constituía. E que em outros abraços e bocas não poderíamos encontrar, ainda que andássemos em busca de esquecer a nós mesmos, de nos esquecer o quanto éramos únicos e completamente especiais. 

Não havia nada como nós. Era do nosso suor, ritmo e completude de que precisávamos.

A grande mulher sertaneja






Suas fundas rugas e olhos com extensas marcas  desenhavam aquele rosto:  sinais de longas noites mal dormidas. Os cabelos alvos alinhavam-se  naquele semblante fino e sofrido. As mãos magras e cheias de veias que quase saltavam da própria pele denunciavam o longo tempo vivido. O corpo magro, quase esquelético, reclamava as dores da fome,  as dores da vida, as dores da alma e daquela seca região.

A lamparina, que igual a ela não descansava, era sua companheira: às 3 horas da manhã juntava os gravetos  para fazer o fogo que, em poucos dias de fartura, poderia aquecer aquela velha vasilha amassada do café. Café forte. Café bravo.  Único líquido tomado antes de ir para a luta do dia. Depois disso, lá ia a valente mulher  a um açude distante, e em sua companhia, o velho jumento que também não aguentava mais. Começava a saga. O açude, com aquela água barrenta, suja, e turva era a esperança de todos  eles, humanos e animais,poderem beber água.

Ela levava  um balde na cabeça e os pequenos filhos que, com os pés castigados de espinhos,  também ajudavam. Ela aproveitava a viagem para colher xique-xique, também lavava  as velhas e únicas  roupas que estavam no corpo  dela e dos meninos. O sol castigava. A vida era dura. Às quinze horas retornava. Lá vinha a pobre mulher. Os outros filhos que ficaram, com olhos fundos e barriga vazia, agora tinham em seus lábios um tímido sorriso: mamãe trazia algo para comer!!!  ´´Mamãe``  repartia o pão: xique-xique para o velho e bom jumentinho, xique-xique para a velha e boa cabra que dava leite, xique-xique para as crianças, que assado, misturava-se com as migalhas de alguma  farinha velha e azeda.

Aquela casa de taipa às 18 horas entrava na escuridão. Era preciso dormir para enganar a fome. A velha e única cadeira que havia naquele  vão, revestida de fios desgastados, e ressecados,  muitos torados , também pedia uma nova vida.
Agora, isso eram marcas do tempo.

_ Aveeeee ... Aveeee...Ave-maria. Aveee .... Aveee .... Aave-maria...
Às dezessete horas, ouvia-se o cortejo fúnebre  naquele seco sertão. Era momento daquela senhora, finalmente,  descansar.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Aurora



 A moça de mãos habilidosas, delicadas, porém firmes; sentou-se ao tear. Fez dali sua morada perene. Não lhe ocorria nem mesmo espreitar da janela, se lá no horizonte se desenhava o clarão do dia ou a escuridão da noite.


 A moça somente tecia e, assim seguia, cosendo os seus dias. Por vezes, entristecia-lhe a solidão que o trabalho exaustivo lhe impunha. Outras, apetecia em seu peito, a necessidade premente de sentir-se feliz. Quando a névoa despontava, ela, então, tecia fios de luz mais dourados do que o sol.


 O frêmito que emanava dos pentes do tear era o único som que lhe vinha fazer companhia nas noites tardias. Minuciosamente, Aurora envolvia entre seus dedos os fios finos. Eram vogais que se emaranhavam a consoantes, pontos e acentos gráficos. 


De fio em fio, palavras soltas em estado de dicionário formavam orações e períodos. Aos poucos, elas compunham um manto cheio de cores vibrantes e diversas. Embaralharam-se tanto que ganharam significados, sentidos e vida. O tecido estava pronto. Uma nova aurora, agora, surgia no horizonte.


 

por Ana Karla Farias.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

As cartas de Medeline.






        Era impressionante! O que me separava dele eram irreparáveis sete anos, sete anos! Muitas coisas ´´mudaram``, mas nada tão drasticamente quanto a mim. O email, que pensava encontrar uma antiga pessoa, dizia coisas assim: ´´ Faz muito tempo que estou pensando insistentemente em você, muito tempo. Pode parecer insanidade minha, mas o pensamento sobre você me assalta de uma forma, digamos assim, quase violenta que o que me resta é buscar alternativas que me façam esquecê-la, tentativas vãs são o que são. Eu não sabia como você reagiria, aliás, nesse exato momento que escrevo isso, continuo sem saber, no entanto, prossigo com essas linhas, porque já não posso fugir de mim mesmo. Lembro-me que você, desde daquela época já dava sinais de ser quem viria a ser...  Você dizia: é possível fugir de muita coisa, exceto de nossa própria essência. Percebo, então, que a sua essência não foi posta de lado, minha amiga. Percebo, também, que no passado, para você, eu fiquei. Eu já não sei se falo com a mesma pessoa ou com uma nova pessoa, pois o tempo faz dessas coisas, no entanto, apesar de todos esses anos, e com todas as minhas reiteradas tentativas de esquecimento, digo-lhe, finalmente, que você não é uma saudade, pois se assim, eu dissesse, diria que você passou e ficou na lembrança. O problema é justamente o contrário! Você, apesar de todo esse tempo é PRESENÇA! Eu só não sei se já cheguei tarde demais...``.

        Não nego: estava assustada. Assustei-me por dois motivos: a surpresa de ainda permanecer viva naquele homem deixava-me intrigada. Eu, em hipótese alguma, poderia imaginar que àquela madrugada, a minha caixa de e-mail me pregaria essa peça; o outro motivo era que ao longo de um e-mail com incríveis cinco páginas, isso mesmo, cinco páginas, poderia haver menções, fatos e uma pessoa que eu não mais reconhecia: eu. Parecia-me que o tempo tinha tratado de fazer o que ele consegue fazer melhor: esquecer.

         Eu li tudo aquilo, recheado de detalhes e recordações, mas me perguntava de quem se tratava, pois, parecia que aquilo não se tratava mais de mim, não era sobre mim que havia naquele e-mail. Eu não me via mais com aquele sentimento, eu não mais me via com aquele coração. Eu tinha sido acometida gravemente por uma doença que o havia roubado e de lá pra, conseguia viver sem ele.
O tempo liga e quebra pontes, essa era a questão que me revirava naquela madrugada natalina... O tempo quebrava pontes.... Refazia outras... E nisso, exibia a artimanha de nos reconhecer e conhecer a nós diante dos outros. E naquele momento, o que eu desejava de todo coração era saber se ele ainda me reconhecia ou se me conhecia. Eu já não sabia se ele poderia me reconhecer, conhecer.... Minha incógnita era: o que havia sobrado de mim de setes anos atrás? O que havia sobrado? Dei-me por perceber que a casca exterior havia ressecado. O mundo e o tempo trataram de nos colocar uma ponte. Travessia? Não. Essa não era a questão.

         Concluí que quantas e quantas pessoas passam por nós, isso mesmo, passam. E ficam lá atrás, esquecidas, relegadas ao tempo e aos fatos que as envolveram. Quantos de nós já não são as mesmas pessoas para tantos outros, e não somos até para nós mesmos. Decerto, se eu encontrar meu antigo vizinho do tempo que eu tinha dez anos, muito provavelmente ele não me reconhecerá e dirá estupefato o quanto cresci, o quanto mudei, perguntará se tenho filhos e se casei. O meu vizinho, como exemplo, tenta RECONHECER, pois um dia ele me conheceu. Um dia eu fui exatamente aquilo, um dia, nós fomos exatamente aquilo: a criança da rua e alegre; o extrovertido, o introvertido.... Difícil é quando ainda, depois de adultos, voltamos a tentativa de reconhecimento não mais atrelado a uma cronologia temporal, apenas, mas quando dentro dela, existem inúmeros sentimentos e, que eles já não falam mais sobre nós.

     Aquelas lindas palavras, aquele gesto carinhoso e saudoso não falavam mais de mim. A minha essência já dava sinais de quem eu me tornaria, isso ele estava certo, e eu não poderia negar. Não era mais a mesma. Eu ainda admirei a sua foto, ainda tentei buscar alguma coisa que me ligasse, que estivesse ainda resistindo ao tempo, mas a árvore tinha se tornado infrutífera. Nada em mim era fértil, e eu logo mudava de sentimentos, ideias, paixões. O amor era grande demais e não cabia no meu peito, esse era o problema.


      Pensei muito antes de qualquer ação. Não sabia se responder era apropriado, até porque o e-mail havia chegado fazia dias e eu não tinha visto. Também, eu não sabia que ao responder o e-mail poderia estar criando uma travessia entre nós, quem sabe, até um novo enlace? Pensei em ficar em silêncio, porém, aquele e-mail escrito com tanto esmero e amor não poderia ficar sem resposta. Ora! Eu havia conhecido aquela pessoa! Ela fazia parte de minha vida! Eu havia escrito aquela história, e eu não poderia renegá-la. Eu era aquela história, de certo modo, era ainda. Pensei o resto da madrugada inteira, mas em cinco minutos, movida pela impulsividade, eu lhe disse: Caio, meu eterno amigo, pode não ser tarde demais.


_ Eliane Vale 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A MULHER




Não era a beleza;
Não era o corpo estremecido;
Não eram os gestos;
Não era o andar.
Não era a selvageria

Não era o impulso
Ou a corrida
Nem o salto
Nem a subida

Nem a dor
Nem a partida
Nem o vai-e-vem
Nem a pressão concedida

Não era a energia
Nem a fugida
Nem o mal disfarçado
Nem o bem à luz do dia

Nem ao menos era santa
Ou maldita
Era outra coisa... Outra coisa!!!
A COISA!!!
Ela ainda não tinha nome;
Mas me engolia.

Eliane Vale.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Cheia de si






Por que repousas em mim um olhar distante de desdém?

Tu sempre foste fria e cheia de si, não é mesmo?!

Nem podes te queixares de que vives solitária e contemplativa.

Fica-te com teu brilho, majestosa emoldurando o céu

Eu, de minha parte, quedarei-me bem aqui

embaixo

inerte

pequeno

anoiteço-me e só.



 por Ana Karla Farias.

domingo, 22 de novembro de 2015

Os dados de Deus.


Eu, agora há pouco, estava em um lugar.

Estava junto a amigos.

Lá, minha presença exercia um impacto, uma força, uma alteração 
naquele ambiente.

Mas, agora, naquele ambiente, estou morta.

Sou ausência.

Nada tenho parte.

E como saber se minha ausência exerce ainda alguma 
impressão?...

Em alguns momentos, a nossa ausência causa. A nossa ausência,
 em alguns momentos, é ativa!

Em outros momentos, é um nada, o nada!!!


Mas eu, agora, já causo ou não causo em outro momento, em outra
 pessoa
.
Agora, eu causo aqui; agora, causo em nós.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

TUDO É UMA QUESTÃO DE (IM) PORTA






Eu que sempre fui um sujeito esdrúxulo, desses que após o término de uma aula, corre para enclausurar-me no banheiro por receio de não saber como portar-me em meio a presenças humanas, dei para personificar objetos.

Um dia, estava travando um diálogo com uma porta. Ela parecia tão viva que nem atentei para a estranheza do meu ato, e aí vieram outro dia e mais outro, mais outro...Até se tornar uma atividade habitual. Pensei, quiçá, em procurar a ajuda de um analista. Aquela mania, loucura, como queiram, apossou-se de mim de tal forma, que tratei de enxergar o mundo sob a ótica reduzida e bidirecional, de que há dois tipos de pessoas e só- as que abrem e fecham portas.

Quantas horas a fio, dediquei-me com alvoroço em contemplar portas e mais portas. Era uma infinitude delas- brancas, de cor, envelhecidas, polidas, envernizadas. Comecei por examinar a porta do quarto, depois a do banheiro, da cozinha, da sala de estar, e quando dei acordo de mim, estava eu quase sendo apontado como um sujeito de índole moral dúbia, de tanto que fitava estático, imóvel, as portas da vizinhança. Passei a vegetar-me, a objetificar-me, não mais reconhecia minha condição humana.

Quantas vezes, você leitor que agora me julga tresloucado, também não agiu feito porta? E quando fechou, por puro egoísmo, as portas para um amigo que tanto necessitava de oportunidades de mudança? E em quantas ocasiões, perdeu amores por receio de escancara-se a outrem? De invadirem-lhe seu mundo de ostra? Elucubrei com meus botões, ou melhor, com minhas dobradiças e maçaneta, felizes do que aí estão no mundo como portas abertas.



Ana Karla Farias.

sábado, 24 de outubro de 2015

EU NÃO SOU FELIZ EM PEQUENAS OU COM POUCAS COISAS





É impressionante o quanto passamos a vida inteira repetindo frases, palavras sem sentido algum. Coisas que não possuem nexo, mas que soam igualmente a axiomas, quase. Sentei-me para o ato da escrita, peguei uma taça de vinho, geralmente a que me acompanha às Sextas-Feiras, e estava disposta a escrever sobre o quanto somos capazes de ser feliz em pequenas coisas, com poucas coisas.

De súbito, um sentimento questionador me invadiu e, antes de eu refutar uma verdade que me escravizava há muito tempo, pesquisei em alguns dicionários o significado para três palavras. Abaixo, deixo-as para análise:
Pouco: em pequena quantidade;
Pequeno: que é feito em limitada escala;
Felicidade: êxtase, intensa alegria.

Depois dessa rápida pesquisa, o que percebi foi uma incongruência milenar. Não, eu não era feliz em pequenas coisas; eu não ficava feliz com pequenas coisas. As coisas que me deixavam feliz não eram nem pequenas, nem poucas. Elas eram tão completas, tão integrais, tão intensas e extensas dentro de mim que jamais poderiam ser consideras de pouca quantidade. Essa era a incongruência a que me referia. Repito: não havia pequenez, não havia apoucamento em tudo que me fazia feliz ou que me faz feliz.

Mas, não posso negar, e era esta a divergência que havia entre eu e o mundo, que o que me fazia feliz, intensamente transbordada eram situações simples.
O que me fazia feliz, intensamente feliz era compartilhar qualquer sentimento, qualquer situação que me arrancasse um choro de emoção, uma alegria inesperada, um estado espiritual de puro agradecimento pela vida e por estar viva, também a paz interior. Não havia nisso nada de limitado, escasso. Tudo era dado em esborrotamento.  Tudo derramava-se!

Reparem que a felicidade não é tímida, não pode ser tímida. A felicidade, um sentimento de intensa alegria, não pode caber em uma coisa menos do que ela. Prestem bem atenção: o mundo é feito sob leis universais perfeitas e, entre elas, não existe vazão do que é grande pelo o que é pequeno. Já lhes disse: o maior não cabe no menor, não cabe! Para brotar o que é grandioso, originalmente o fruto também virá de algo grandioso, pode ser simples, na maioria das vezes é simples, porém não é pequeno, reles. E simples, meus caros amigos, quer dizer apenas que não é preciso que seja muito engendrado, complexo, exclusivo. Percebam que não existe uma relação do que é simples com o que é reles, baixo ou desprezível. A definição do que se é simples é  apenas dizer o que é natural, comum e potencialmente encontrável nas mais variadas situações. Vejam que o valor  do simples é justamente o fato de ele ser possível a todos nós,  a qualquer momento.


Diante disso, percebi que era impossível eu ser feliz em pequenas coisas. Sou indisposta  a coisas pequenas e poucas, mas as simples, as inocentes, as singelas, as comuns são as que me comprazem.

Eliane Vale

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O CANIBAL


Foi parindo aquele deformado bicho
Foi parindo os filamentos afiados
Foi parindo aquele denso e ignóbil ser
Foi parindo...
Parindo-se.
O útero se contraiu e ejetou.
Havia comido a dor.
E somente come a dor quem a consegue parir.
E somente pari a dor quem um dia conseguiu comê-la.
E se conseguiu comê-la,
Já é muito maior,
Muito mais escuro,
Muito mais perverso do que ela.

Eliane Vale