QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?
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sábado, 2 de janeiro de 2016

A grande mulher sertaneja






Suas fundas rugas e olhos com extensas marcas  desenhavam aquele rosto:  sinais de longas noites mal dormidas. Os cabelos alvos alinhavam-se  naquele semblante fino e sofrido. As mãos magras e cheias de veias que quase saltavam da própria pele denunciavam o longo tempo vivido. O corpo magro, quase esquelético, reclamava as dores da fome,  as dores da vida, as dores da alma e daquela seca região.

A lamparina, que igual a ela não descansava, era sua companheira: às 3 horas da manhã juntava os gravetos  para fazer o fogo que, em poucos dias de fartura, poderia aquecer aquela velha vasilha amassada do café. Café forte. Café bravo.  Único líquido tomado antes de ir para a luta do dia. Depois disso, lá ia a valente mulher  a um açude distante, e em sua companhia, o velho jumento que também não aguentava mais. Começava a saga. O açude, com aquela água barrenta, suja, e turva era a esperança de todos  eles, humanos e animais,poderem beber água.

Ela levava  um balde na cabeça e os pequenos filhos que, com os pés castigados de espinhos,  também ajudavam. Ela aproveitava a viagem para colher xique-xique, também lavava  as velhas e únicas  roupas que estavam no corpo  dela e dos meninos. O sol castigava. A vida era dura. Às quinze horas retornava. Lá vinha a pobre mulher. Os outros filhos que ficaram, com olhos fundos e barriga vazia, agora tinham em seus lábios um tímido sorriso: mamãe trazia algo para comer!!!  ´´Mamãe``  repartia o pão: xique-xique para o velho e bom jumentinho, xique-xique para a velha e boa cabra que dava leite, xique-xique para as crianças, que assado, misturava-se com as migalhas de alguma  farinha velha e azeda.

Aquela casa de taipa às 18 horas entrava na escuridão. Era preciso dormir para enganar a fome. A velha e única cadeira que havia naquele  vão, revestida de fios desgastados, e ressecados,  muitos torados , também pedia uma nova vida.
Agora, isso eram marcas do tempo.

_ Aveeeee ... Aveeee...Ave-maria. Aveee .... Aveee .... Aave-maria...
Às dezessete horas, ouvia-se o cortejo fúnebre  naquele seco sertão. Era momento daquela senhora, finalmente,  descansar.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Epidermicamente mortais




Você nunca vai me contar todos os seus segredos,

E eu sempre vou ter um medo reservado que me impedirá de me dar cruamente para você .

Não vamos conseguir ficar transparentes, porque ficar assim , dói.

E não queremos doer, não queremos...

Mas como sentir tudo que podemos sentir sem dar tudo de si, tudo que temos?

Que caminho sem volta...

Que caminho sem volta ...

Doemos ou não?

Se você arrancar meu coração, eu tenho dois segredos para dizer:

Eu tenho outro coração na escuridão, aquele que fica em segredo;

E também arranco sua alma até que sangre.

Consegue lidar com animais selvagens?

Consegue?

Já experimentou animais selvagens?

E se eu fugir repentinamente, desaparecer e fizer tudo errado, não é porque desisti, é porque eu não suportaria sentir mais do que eu estava sentindo.

Eu não tinha opção: eu tinha que fazer tudo errado para matar você dentro de mim.

Não tente me domar, é em vão.

Animais possuem garras e quando se sentem acuados, infelizmente, fazem duas coisas: ou fogem, ou avançam, e em qualquer dessas opções, machucam.

Se não puder sangrar, não venha.

Porque todo selvagem fica sem a pele, mas não desiste no ápice da luta.

Somente paramos, animais selvagens, somente param quando morre cada força.

Vingança? Não, não é.

É o desejo intenso de levá-lo a tudo que consigo sentir;

É o desejo que você queime tanto quanto eu.

Eu nunca prometi que seria eterno, mas eu também nunca prometi que não te mataria.


Eliane Vale.