QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Eu não quero mais me magoar





´´Eu queria voltar a acreditar``, essa foi a frase que ouvi, logo pela manhã, e me chamou a atenção.  E eu fico pensando quantos de nós queremos voltar a acreditar no outro, no companheiro, no amigo.  Realmente, relacionar-se não é nada fácil.

Estamos vivendo uma grande safra de corações quebrados. Mas, ao mesmo tempo que digo isso, sei que em todo tempo, existiram corações quebrados.  No entanto, o que me trouxe até aqui foi o antes e o depois de quando nosso coração é espatifado. Ao que me parece, esses são os pontos chaves da questão.

Nascemos com coragem. Somos seres corajosos desde o nascimento, e isso é muito perceptível quando somos crianças. Basta que observemos a quantidade de vezes que caímos, e ainda assim, corremos desesperadamente por qualquer coisa ou por nada mesmo, apenas pela diversão e desafio. A nossa coragem pueril nos faz colher raladuras, hematomas e, para aqueles mais atrevidos ainda, algum corte que nos leva a ter que passar por suturas. A coragem que temos quando criança é admirável. A queda que sofremos na semana passada não nos impede de correr novamente. A gente se atira mesmo. Mas, não é assim que acontece quando crescemos. Realmente, nascemos com coragem, mas aprendemos a ter medo, e o medo muda tudo. O medo se aprende. A coragem, não.
O grande problema de termos sido magoados, desrespeitados e não amados como merecíamos é porque muitos de nós levamos conscientemente ou não, essas experiências negativas para o próximo relacionamento. Ficamos com medo. Então, passamos a nos monitorar o quanto podemos dar ao outro, seja no amor, seja na confiança, seja no respeito. Construímos, então, um relacionamento medido, negociado na moeda ´´só dou, se me der; só faço, se fizer``, e com isso, expandimos nossa experiência desastrosa para outros corações, outras vidas. Na verdade, apesar de não querermos, alargamos esse efeito dominó   amoroso em nossa   vida por muito mais tempo, ainda que a pessoa que nos fez passar por tudo isso, já tenha ido embora há séculos.

É fato que qualquer experiência pode nos trazer crescimento, aprendizado. Mas, aprendizado e crescimento significam justamente a busca por novos caminhos, novos interesses para conduzir a novos resultados, e talvez seja aí, o pulo do gato, como chamam. Pois, desenhar um novo padrão do que se quer é dificílimo, e quando se consegue, ainda temos que deixar as lembranças negativas do passado, no passado. É óbvio que não estou dizendo que devemos nos atirar a qualquer um sem cuidados, mas, observe que se previamente nos condicionamos a querer algo, de cara, já diminuímos as incidências de algumas coisas que não desejamos. O interessante disso tudo é que nenhum relacionamento é uma receita de bolo, ok? Ou seja, ainda que você faça tudo certo, acredite, pode dar errado, muito errado mesmo. Mas, sabe aquilo que você, eu, e todos nós sabemos de cor e salteado? Sim! Isso mesmo! Que amar é um risco? Pois é! Amar é um risco tremendo, então, ainda que você faça seu melhor, algo pode acontecer, mas isso não é sua culpa! Compreenda que você fez o seu melhor.

Um dia, você acreditou em alguém com pureza e ingenuidade. Também amou.  Infelizmente, decepcionou-se tanto que redesenhou para si o padrão que não queria que existisse no outro. E você errou quando fez isso, e não quando amou, entende? Isso foi o aprendizado que obteve? Não. Isso foi o medo! Foi o medo que enclausurou você, e enclausura a tantos de nós, justamente para aceitar que o ´´menos`` ou o ´´mais ou menos`` é o que realmente existe, e nos fazer acreditar que ficar com um patamar mediano já é de bom tamanho. O medo é uma armadilha tremenda. Ele reduz nossas capacidades, oportunidades, qualidades, exigências, sonhos e esperanças. O medo não nos deixa ser crianças... A gente nunca mais corre porque temos medo de ralar o joelho.

´´Eu queria voltar a acreditar`` é o que diz um coração espatifado por outro, e por mais que esse outro já não mais seja presente, ele ainda vive nesse coração. Como? As raladuras sararam, mas além das cicatrizes, o medo se instalou.


Por Eliane Vale.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Adaptar-se é morrer







E de tanto viver imersa num lamaçal pútrido,
habituei-me à imundície, aos detritos e restos.

Adaptei-me
acomodei-me ao inóspito, de tal forma,
que minha visão se demorou turva
e somente pude, a isso me atentar,
quando ratos e insetos passaram a transitar sobre os meus lençóis.

Por Ana Karla Farias.

quarta-feira, 30 de março de 2016

A escolha




Quando fazemos escolhas e os céus nos ouvem
Quando fazemos escolhas e a luz e a escuridão são opções
Diga-me, diga-me: 
Qual você escolherá?
Qual você escolheria?
O sol clareia nossas cabeças, campos e vales
Ilumina as florestas, nossas mentes e tudo o que há
Mas, diga-me, diga-me: Qual você escolheria?
Qual você escolherá?
Porque de outro modo, está a lua iluminando toda escuridão
Entrando nos bosques, pântanos e corações
Mas, diga-me, DIGA-ME: Qual você escolheria?
Qual escolheria?
O sol pode queimar com seus raios intensos e queimará cada pele, cada centelha de vida
A lua penetra com toda energia e irradia força, vibração.
Eu só quero saber, diga-me, DIGA-ME: Qual você escolherá????
Qual você escolheu?
Qual você escolheria???
Noite ou dia???
Noite?
Dia?
Primeiro, noite.
Depois, dia.
O que seria?

_ Eliane Vale

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

APENAS MAIS UM GOLE




Ela sempre trazia a minha cama, uma taça de um líquido insípido
Nunca soube ao certo o que era
Não ousei perguntar
De um modo tão terno e sutil, ela me ordenara a beber
Eu somente obedecia.

Comecei a degustar com parcimônia,
somente contidos goles
Gra-du-al-men-te estava entorpecido
Não poderia dizer que estava bêbado
Não! Aquilo não era o efeito narcotizante de álcool
Eu estava sóbrio, mas ao mesmo tempo, ébrio.

-Bebe! Resta apenas um copo
Ela proferia em tom de autoridade
Não fiz objeções, não quis relutar
Virei o copo e tomei até a última gota.

Senti que algo em mim esvaecia,
deixava de pulsar.
Cianureto, arsênico...
Uma espécie de veneno parecia arrancar-me a vida.

Quando estava estendido sobre a cama,
feito um moribundo.
A tez pálida, os lábios arroxeados,
ela se aproxima e sussurra em meu ouvido:
- Não estás morrendo, só estou matando o que havia de mim em ti.



Por Ana Karla Farias.







sábado, 23 de janeiro de 2016

IRRACIONAIS





Irremediavelmente as feras possuíam muitas peles
Todas elas cortavam-se e gruíam
Os bichos eram vivos
Os monstros nasciam pela manhã
E os céus escureciam à tarde
E eu lamentava copiosamente por aqueles animais
Eles não tinham redenção:

Eram animais, humanos e bestas.


Por    Eliane Vale.



quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CATARSE DO AMOR





Quando o amor invadir e quiser uma resposta rápida e precisa qual fosse uma lâmina afiada
Eu digo:
AVANCE!
AVANCE!!
Essa pode ser a sua última chance de cortar os pulsos.
Avance!!
Avance!!
A dor é algo que faz o ser humano incrivelmente forte.

E se o amor chegar e exigir de você que os castelos sejam desfeitos
Eu digo:
AVANCE!!
AVANCE!!
Derrube as estruturas.
Porque se for amor, se é amor, ele vai te derrubar por inteiro até lhe fazer outra pessoa, até matar você, arrancar seu ar e depois soprar uma nova alma em você.
Avance, garoto, avance garota!!!

E se no ar o choro e o grito soarem, grite mais forte, chore mais forte

Porque se for amor, se é amor, ninguém pode escapar!


Por Eliane Vale

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

NADA TÃO ASSASSINO





Vazio mata 
Pensadores,
Solitários,
Amantes e amados

Vazio mata
Seres abstratos,
Temores
E sombras do passado

Vazio mata
Almas, dores
E amores nunca experienciados.


Eliane Vale

MINHA PEQUENA DÓROTTY









Boneca de pano,
Derretes a pele ou algo mais profano?
A que te permites costurar?
Chita, membros ou espasmos no ar?


Boneca de pano,
Porque em ti há tantos retalhos?
Não compraste tecido inteiro, apenas frangalhos?


Boneca de pano,
Não te atrevas a esta encenação macabra
Não sejas de ti uma escrava


Boneca de pano,
Quer nos poupar desta fonte divinal?
Por que aprisionar um animal tão espiritual?

Boneca de pano,
Eu quero sua alma,
A sua carne infernal.

Eliane Vale

domingo, 3 de janeiro de 2016

Eu só queria lhe confessar uma coisa



Eu nunca fui boa no manejo com as palavras faladas. Perdi as contas de quantas vezes quis dizer a um amigo o quanto sua companhia era valiosa e regeneradora para mim e o vi partir sem que ele não ouvisse isso de meus lábios, talvez supusesse o quão ele era importante aos meus olhos, mas o véu da incerteza jamais fora rasgado.

Já com os amores, idem. Não que eu seja fria e insensível aos sentimentos humanos, não! Eu sou manteiga derretida! Contudo, impera em mim o bloqueio para proferir certas coisas. Toda vez que tentei vomitar o que, de fato, sentia, restou inútil. Balbuciava as palavras, mas em som inaudível. Quando elas tentavam sair e produzir sons, parecia que uma fuligem se formava em minha boca e eu engolia as palavras em meio à saliva.

Após sete anos de relacionamento afetivo com Filipe, iremos casar daqui a uma semana. Estou com uma sensação de dever cumprido, ele, por sua vez, está deslumbrante. Nem me recordo da última vez em que o vi tão feliz. Talvez, quando engatamos o namoro, ele se apoderou de tamanha alegria. Bastava olhar pro seu sorriso de onde emanava um clarão que respingava em mim.

Os preparativos estavam em ordem. Contratamos o buffet, o cerimonialista, adornamos a praia onde a cerimônia será realizada, compramos as alianças, encomendamos o bolo confeitado, os bem-casados, confeccionamos os convites, compramos as flores. Está tudo perfeito, lindo! Filipe encarregou-se de tudo, por ser empresário no ramo de produção cultural, ele tem mais acesso a algumas pessoas especializadas na organização de festas.

Eu estava tão nervosa. Era tanta gente comentando que o meu grande dia estava na iminência de chegar. Minha agenda, então, tumultuada como nunca antes. Alguns jornais de circulação local queriam fotografar  "a noiva do ano”, a noiva do empresário Filipe Albuquerque. A pressão por carregar esse aposto me dava um certo arrepio. Por vezes, sentia que era uma carga desproporcional para que eu suportasse. Daqui a uma semana, a alta sociedade de Pasárgada iria conhecer a tão profanada noiva do seu filho mais ilustre.

Eu tinha um noivo maravilhoso, bonito, bem-sucedido e apaixonado. Eu era um ser agraciado realmente. Minhas amigas comentavam que seria o casamento dos sonhos de qualquer garota.

O tempo transcorreu e faltam apenas três dias para o casório. Fui rever Filipe que havia feito uma rápida viagem de negócios, estava me contorcendo de saudades. Quando adentrei em seu escritório, avistei Filipe, trajando um terno desenhado por um dos mais caros estilistas do país. Como sempre estava impecável. O cabelo alinhado, a gravata de tecido fino, os sapatos reluzentes e um sorriso narcotizante de quem veio diretamente do monte Olimpo, na mitologia grega. Ufa, que homem!

Andei treinando algumas palavras para enfim destiná-las ao meu noivo, afinal, o grande dia estava para chegar. Minhas mãos tornaram-se frias e eu estremecia por dentro. Como era dificultoso para mim, desatar o nó na garganta que eu carreguei por uma vida inteira. Mas, eu respirei fundo e prometi a mim mesma que não iria falhar com Filipe como o fiz com os outros que tanto marcaram meus dias.

Eu vim repetindo, durante o caminho, as palavras certas a serem proferidas. Quando chamei seu nome e ele me fustigou com aquele olhar dionísico que tanto lhe era peculiar, eu soltei o que estava entranhado.


- Eu precisava lhe confessar uma coisa, agora que estamos a três dias do nosso casamento. Eu lhe peço perdão por ter sido uma pessoa tão calada, ter silenciado quando deveria falar. É que eu não sou boa em externar o que sinto, mas nem por isso, sou insensível o quanto parece. Filipe, EU NÃO TE AMO. E eu nunca fui uma moça casaidora. Destas que se sentem completas por ter encontrado um marido. Muitas mulheres vivem à procura de um cara que as façam felizes. Mas, eu descobri que é vã a tentativa de procurar pela felicidade, porque eu a encontrei em mim mesma. Parece uma contradição dizer isso, logo eu, mas eu descobri que SINTO muito.


 por Ana Karla Farias.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Nessa vida, o que diz seu coração?


Quando criança imaginamos e desejamos inúmeras coisas. É fácil todas elas. Ser astronauta ou bombeiro tem o mesmo grau de dificuldade e, sendo criança, o grau é quase nenhum. O que basta mesmo é o desejo ardente no peito de dizer ´´quando crescer, quero ser ...``

Contudo, ao crescermos, passamos por situações que nos fazem esquecer essa criança dócil que havia em nós. E com isso, tornamo-nos arredios e fiéis, não aos nossos sonhos mais íntimos e genuínos, mas fiéis ao fluxo do mundo, às tendências das correntezas. Por fim, quando nos perdemos por completo, fazemos parte da média, isso mesmo, da média das pessoas que pouco vivem ou pouco sonham; pouco desejam ou pouco se arriscam. Nesse momento, matamos o nosso coração e toda a capacidade de ser quem desejamos ser; toda a capacidade de sermos aquele para o qual realmente viemos para ser.

Muitos de nós não somos o que queremos ser. Pensar que morreremos e perderemos a única oportunidade  de ser tudo o que um dia nosso coração fez bater é algo desastroso.
Mas se você realmente quer imaginar isso, quer imaginar o quanto isso pode ser fatal, pense exatamente agora que você não viverá para sempre, e que irremediavelmente, seu último dia chegará. 



Neste exato momento, o arrependimento e a tristeza por não  ser ou fazer o desejo de seu coração lhe atormentará. Você não tem mais tempo. Todo o tempo que você achou que tivesse era uma armadilha de sua mente: você não tinha todo o tempo do mundo. Então, sob essa perspectiva, aproveite agora o que há de mais verdadeiro no seu coração. O seu mundo é o que há nele.  Esqueça a média das pessoas que fazem o que sempre fazem, que dizem o que sempre dizem. Não! Isso não é caso de rebeldia. Apenas, faça e sinta o que existe no seu coração. Não há como ser verdadeiro com os outros, se passou a vida inteira mentindo para si. Comece do zero. Comece o ano sendo você, porque isso pode lhe provocar desconforto e medos, mas jamais será uma mentira ou covardia.

Da paixão



A sua pele era minha segunda roupa que me cobria com lascívia suficiente para que o mundo se acabasse ali mesmo, apenas com nós dois. 

Um mundo ilimitado por dogmas ou códigos. Era de pura paixão que a nossa cadência sensual se constituía. E que em outros abraços e bocas não poderíamos encontrar, ainda que andássemos em busca de esquecer a nós mesmos, de nos esquecer o quanto éramos únicos e completamente especiais. 

Não havia nada como nós. Era do nosso suor, ritmo e completude de que precisávamos.

A grande mulher sertaneja






Suas fundas rugas e olhos com extensas marcas  desenhavam aquele rosto:  sinais de longas noites mal dormidas. Os cabelos alvos alinhavam-se  naquele semblante fino e sofrido. As mãos magras e cheias de veias que quase saltavam da própria pele denunciavam o longo tempo vivido. O corpo magro, quase esquelético, reclamava as dores da fome,  as dores da vida, as dores da alma e daquela seca região.

A lamparina, que igual a ela não descansava, era sua companheira: às 3 horas da manhã juntava os gravetos  para fazer o fogo que, em poucos dias de fartura, poderia aquecer aquela velha vasilha amassada do café. Café forte. Café bravo.  Único líquido tomado antes de ir para a luta do dia. Depois disso, lá ia a valente mulher  a um açude distante, e em sua companhia, o velho jumento que também não aguentava mais. Começava a saga. O açude, com aquela água barrenta, suja, e turva era a esperança de todos  eles, humanos e animais,poderem beber água.

Ela levava  um balde na cabeça e os pequenos filhos que, com os pés castigados de espinhos,  também ajudavam. Ela aproveitava a viagem para colher xique-xique, também lavava  as velhas e únicas  roupas que estavam no corpo  dela e dos meninos. O sol castigava. A vida era dura. Às quinze horas retornava. Lá vinha a pobre mulher. Os outros filhos que ficaram, com olhos fundos e barriga vazia, agora tinham em seus lábios um tímido sorriso: mamãe trazia algo para comer!!!  ´´Mamãe``  repartia o pão: xique-xique para o velho e bom jumentinho, xique-xique para a velha e boa cabra que dava leite, xique-xique para as crianças, que assado, misturava-se com as migalhas de alguma  farinha velha e azeda.

Aquela casa de taipa às 18 horas entrava na escuridão. Era preciso dormir para enganar a fome. A velha e única cadeira que havia naquele  vão, revestida de fios desgastados, e ressecados,  muitos torados , também pedia uma nova vida.
Agora, isso eram marcas do tempo.

_ Aveeeee ... Aveeee...Ave-maria. Aveee .... Aveee .... Aave-maria...
Às dezessete horas, ouvia-se o cortejo fúnebre  naquele seco sertão. Era momento daquela senhora, finalmente,  descansar.