Suas fundas rugas e olhos com extensas marcas desenhavam aquele rosto: sinais de longas noites mal dormidas. Os cabelos alvos alinhavam-se naquele semblante fino e sofrido. As mãos magras e cheias de veias que quase saltavam da própria pele denunciavam o longo tempo vivido. O corpo magro, quase esquelético, reclamava as dores da fome, as dores da vida, as dores da alma e daquela seca região.
A lamparina, que igual a ela não descansava, era sua companheira: às 3 horas da manhã juntava os gravetos para fazer o fogo que, em poucos dias de fartura, poderia aquecer aquela velha vasilha amassada do café. Café forte. Café bravo. Único líquido tomado antes de ir para a luta do dia. Depois disso, lá ia a valente mulher a um açude distante, e em sua companhia, o velho jumento que também não aguentava mais. Começava a saga. O açude, com aquela água barrenta, suja, e turva era a esperança de todos eles, humanos e animais,poderem beber água.
Ela levava um balde na cabeça e os pequenos filhos que, com os pés castigados de espinhos, também ajudavam. Ela aproveitava a viagem para colher xique-xique, também lavava as velhas e únicas roupas que estavam no corpo dela e dos meninos. O sol castigava. A vida era dura. Às quinze horas retornava. Lá vinha a pobre mulher. Os outros filhos que ficaram, com olhos fundos e barriga vazia, agora tinham em seus lábios um tímido sorriso: mamãe trazia algo para comer!!! ´´Mamãe`` repartia o pão: xique-xique para o velho e bom jumentinho, xique-xique para a velha e boa cabra que dava leite, xique-xique para as crianças, que assado, misturava-se com as migalhas de alguma farinha velha e azeda.
Aquela casa de taipa às 18 horas entrava na escuridão. Era preciso dormir para enganar a fome. A velha e única cadeira que havia naquele vão, revestida de fios desgastados, e ressecados, muitos torados , também pedia uma nova vida.
Agora, isso eram marcas do tempo.
_ Aveeeee ... Aveeee...Ave-maria. Aveee .... Aveee .... Aave-maria...
Às dezessete horas, ouvia-se o cortejo fúnebre naquele seco sertão. Era momento daquela senhora, finalmente, descansar.

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