QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

TUDO É UMA QUESTÃO DE (IM) PORTA






Eu que sempre fui um sujeito esdrúxulo, desses que após o término de uma aula, corre para enclausurar-me no banheiro por receio de não saber como portar-me em meio a presenças humanas, dei para personificar objetos.

Um dia, estava travando um diálogo com uma porta. Ela parecia tão viva que nem atentei para a estranheza do meu ato, e aí vieram outro dia e mais outro, mais outro...Até se tornar uma atividade habitual. Pensei, quiçá, em procurar a ajuda de um analista. Aquela mania, loucura, como queiram, apossou-se de mim de tal forma, que tratei de enxergar o mundo sob a ótica reduzida e bidirecional, de que há dois tipos de pessoas e só- as que abrem e fecham portas.

Quantas horas a fio, dediquei-me com alvoroço em contemplar portas e mais portas. Era uma infinitude delas- brancas, de cor, envelhecidas, polidas, envernizadas. Comecei por examinar a porta do quarto, depois a do banheiro, da cozinha, da sala de estar, e quando dei acordo de mim, estava eu quase sendo apontado como um sujeito de índole moral dúbia, de tanto que fitava estático, imóvel, as portas da vizinhança. Passei a vegetar-me, a objetificar-me, não mais reconhecia minha condição humana.

Quantas vezes, você leitor que agora me julga tresloucado, também não agiu feito porta? E quando fechou, por puro egoísmo, as portas para um amigo que tanto necessitava de oportunidades de mudança? E em quantas ocasiões, perdeu amores por receio de escancara-se a outrem? De invadirem-lhe seu mundo de ostra? Elucubrei com meus botões, ou melhor, com minhas dobradiças e maçaneta, felizes do que aí estão no mundo como portas abertas.



Ana Karla Farias.

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