QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?

domingo, 3 de janeiro de 2016

Eu só queria lhe confessar uma coisa



Eu nunca fui boa no manejo com as palavras faladas. Perdi as contas de quantas vezes quis dizer a um amigo o quanto sua companhia era valiosa e regeneradora para mim e o vi partir sem que ele não ouvisse isso de meus lábios, talvez supusesse o quão ele era importante aos meus olhos, mas o véu da incerteza jamais fora rasgado.

Já com os amores, idem. Não que eu seja fria e insensível aos sentimentos humanos, não! Eu sou manteiga derretida! Contudo, impera em mim o bloqueio para proferir certas coisas. Toda vez que tentei vomitar o que, de fato, sentia, restou inútil. Balbuciava as palavras, mas em som inaudível. Quando elas tentavam sair e produzir sons, parecia que uma fuligem se formava em minha boca e eu engolia as palavras em meio à saliva.

Após sete anos de relacionamento afetivo com Filipe, iremos casar daqui a uma semana. Estou com uma sensação de dever cumprido, ele, por sua vez, está deslumbrante. Nem me recordo da última vez em que o vi tão feliz. Talvez, quando engatamos o namoro, ele se apoderou de tamanha alegria. Bastava olhar pro seu sorriso de onde emanava um clarão que respingava em mim.

Os preparativos estavam em ordem. Contratamos o buffet, o cerimonialista, adornamos a praia onde a cerimônia será realizada, compramos as alianças, encomendamos o bolo confeitado, os bem-casados, confeccionamos os convites, compramos as flores. Está tudo perfeito, lindo! Filipe encarregou-se de tudo, por ser empresário no ramo de produção cultural, ele tem mais acesso a algumas pessoas especializadas na organização de festas.

Eu estava tão nervosa. Era tanta gente comentando que o meu grande dia estava na iminência de chegar. Minha agenda, então, tumultuada como nunca antes. Alguns jornais de circulação local queriam fotografar  "a noiva do ano”, a noiva do empresário Filipe Albuquerque. A pressão por carregar esse aposto me dava um certo arrepio. Por vezes, sentia que era uma carga desproporcional para que eu suportasse. Daqui a uma semana, a alta sociedade de Pasárgada iria conhecer a tão profanada noiva do seu filho mais ilustre.

Eu tinha um noivo maravilhoso, bonito, bem-sucedido e apaixonado. Eu era um ser agraciado realmente. Minhas amigas comentavam que seria o casamento dos sonhos de qualquer garota.

O tempo transcorreu e faltam apenas três dias para o casório. Fui rever Filipe que havia feito uma rápida viagem de negócios, estava me contorcendo de saudades. Quando adentrei em seu escritório, avistei Filipe, trajando um terno desenhado por um dos mais caros estilistas do país. Como sempre estava impecável. O cabelo alinhado, a gravata de tecido fino, os sapatos reluzentes e um sorriso narcotizante de quem veio diretamente do monte Olimpo, na mitologia grega. Ufa, que homem!

Andei treinando algumas palavras para enfim destiná-las ao meu noivo, afinal, o grande dia estava para chegar. Minhas mãos tornaram-se frias e eu estremecia por dentro. Como era dificultoso para mim, desatar o nó na garganta que eu carreguei por uma vida inteira. Mas, eu respirei fundo e prometi a mim mesma que não iria falhar com Filipe como o fiz com os outros que tanto marcaram meus dias.

Eu vim repetindo, durante o caminho, as palavras certas a serem proferidas. Quando chamei seu nome e ele me fustigou com aquele olhar dionísico que tanto lhe era peculiar, eu soltei o que estava entranhado.


- Eu precisava lhe confessar uma coisa, agora que estamos a três dias do nosso casamento. Eu lhe peço perdão por ter sido uma pessoa tão calada, ter silenciado quando deveria falar. É que eu não sou boa em externar o que sinto, mas nem por isso, sou insensível o quanto parece. Filipe, EU NÃO TE AMO. E eu nunca fui uma moça casaidora. Destas que se sentem completas por ter encontrado um marido. Muitas mulheres vivem à procura de um cara que as façam felizes. Mas, eu descobri que é vã a tentativa de procurar pela felicidade, porque eu a encontrei em mim mesma. Parece uma contradição dizer isso, logo eu, mas eu descobri que SINTO muito.


 por Ana Karla Farias.

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