Eu nunca
fui boa no manejo com as palavras faladas. Perdi as contas de quantas
vezes quis dizer a um amigo o quanto sua companhia era valiosa e
regeneradora para mim e o vi partir sem que ele não ouvisse isso de meus
lábios, talvez supusesse o quão ele era importante aos meus olhos, mas o
véu da incerteza jamais fora rasgado.
Já com
os amores, idem. Não que eu seja fria e insensível aos sentimentos
humanos, não! Eu sou manteiga derretida! Contudo, impera em mim o
bloqueio para proferir certas coisas. Toda vez que tentei vomitar o
que, de fato, sentia, restou inútil. Balbuciava as palavras, mas em
som inaudível. Quando elas tentavam sair e produzir sons, parecia
que uma fuligem se formava em minha boca e eu engolia as palavras em
meio à saliva.
Após
sete anos de relacionamento afetivo com Filipe, iremos casar daqui a
uma semana. Estou com uma sensação de dever cumprido, ele, por sua
vez, está deslumbrante. Nem me recordo da última vez em que o vi
tão feliz. Talvez, quando engatamos o namoro, ele se apoderou de
tamanha alegria. Bastava olhar pro seu sorriso de onde emanava um
clarão que respingava em mim.
Os
preparativos estavam em ordem. Contratamos o buffet, o
cerimonialista, adornamos a praia onde a cerimônia será realizada,
compramos as alianças, encomendamos o bolo confeitado, os
bem-casados, confeccionamos os convites, compramos as flores. Está
tudo perfeito, lindo! Filipe encarregou-se de tudo, por ser
empresário no ramo de produção cultural, ele tem mais acesso a
algumas pessoas especializadas na organização de festas.
Eu estava
tão nervosa. Era tanta gente comentando que o meu grande dia estava
na iminência de chegar. Minha agenda, então, tumultuada como nunca
antes. Alguns jornais de circulação local queriam fotografar "a
noiva do ano”, a noiva do empresário Filipe Albuquerque. A pressão por carregar esse aposto me dava um certo arrepio. Por vezes, sentia
que era uma carga desproporcional para que eu suportasse. Daqui a uma
semana, a alta sociedade de Pasárgada iria conhecer a tão profanada
noiva do seu filho mais ilustre.
Eu tinha
um noivo maravilhoso, bonito, bem-sucedido e apaixonado. Eu era um
ser agraciado realmente. Minhas amigas comentavam que seria o
casamento dos sonhos de qualquer garota.
O tempo
transcorreu e faltam apenas três dias para o casório. Fui rever
Filipe que havia feito uma rápida viagem de negócios, estava me
contorcendo de saudades. Quando adentrei em seu escritório, avistei
Filipe, trajando um terno desenhado por um dos mais caros estilistas
do país. Como sempre estava impecável. O cabelo alinhado, a gravata
de tecido fino, os sapatos reluzentes e um sorriso narcotizante de
quem veio diretamente do monte Olimpo, na mitologia grega. Ufa, que
homem!
Andei
treinando algumas palavras para enfim destiná-las ao meu noivo,
afinal, o grande dia estava para chegar. Minhas mãos tornaram-se
frias e eu estremecia por dentro. Como era dificultoso para mim,
desatar o nó na garganta que eu carreguei por uma vida inteira. Mas,
eu respirei fundo e prometi a mim mesma que não iria falhar com
Filipe como o fiz com os outros que tanto marcaram meus dias.
Eu vim
repetindo, durante o caminho, as palavras certas a serem proferidas.
Quando chamei seu nome e ele me fustigou com aquele olhar dionísico
que tanto lhe era peculiar, eu soltei o que estava entranhado.
- Eu
precisava lhe confessar uma coisa, agora que estamos a três dias do
nosso casamento. Eu lhe peço perdão por ter sido uma pessoa tão
calada, ter silenciado quando deveria falar. É que eu não sou boa
em externar o que sinto, mas nem por isso, sou insensível o quanto
parece. Filipe, EU NÃO TE AMO. E eu nunca fui uma moça casaidora.
Destas que se sentem completas por ter encontrado um marido. Muitas
mulheres vivem à procura de um cara que as façam felizes. Mas, eu
descobri que é vã a tentativa de procurar pela felicidade, porque
eu a encontrei em mim mesma. Parece uma contradição dizer isso, logo eu, mas
eu descobri que SINTO muito.


por Ana Karla Farias.

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