QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Apenas mais uma história de amor



 Em terra árida onde o sol castiga o ano inteiro, a chuva é considerada literalmente um presente dos céus, uma recompensa divina, um sinal de que Deus está satisfeito com as ações humanas. Como há muito tempo, naquele início de tarde desabou um dilúvio.

Os pequenos para os quais aquela porção de chuva era algo estapafúrdio e inusitado, ficaram intimidados, observando da janela o cair de tanta água. Não sabiam ao certo por que, repentinamente, os céus puseram-se a chorar, mas cogitavam em seus mundos imaginários, que decorria de uma causa alegre. Afinal, dona Marieta, a matriarca da família, estava tão faceira que não se quedava quieta, contemplando o fenômeno miraculoso da natureza:

- Vão meninos, brincar na chuva. Essa meninada não sabe mais o que é ser criança. Na minha época, a gente corria pra rua.

Dona Marieta como era conhecida na cidade, morava com sua filha mais velha e três netos, dentre os quais estava Heloísa, que ainda lhes será apresentada, caros leitores. A septuagenária acusava os netos de estarem sendo ingratos à tamanha prova de generosidade de Deus:
-Deus manda uma bênção dessas e vocês ficam aí parados. Não sabem agradecer aos presentes que recebem?

Quando caminhava em direção à porta, a passos tímidos, denunciando sinais do afã de uma vida árdua, dedicada ao trabalho e às prendas domésticas, Marieta esbarra na neta mais velha. Heloísa chegou com as vestes encharcadas e numa pressa incomum como quem foge de um algoz.
- Que deu nessa menina? Que pressa é essa? Parece que viu assombração.

Com seu jeito peculiar de quem gosta de sínteses e de parcas palavras, Heloísa responde:
-Foi melhor assim.

Trancafiada no quarto, a moça agarrou uma foto do namorado César e apertou-a contra seu peito com demasiada fúria, que se objeto tivesse braços, estariam agora entrelaçados. Os pingos de chuva não despencavam somente lá fora, Heloísa sentia que chovia também dentro dela. O tempo era de tempestade e resvalava no interior daquelas almas. Agora, compreendeu por que seu vestido estava ali molhado, respingando pelo chão do quarto.

-Como hei de matar o que há de você dentro de mim?, indagava aos prantos e soluços.

Passaram-se dois dias de toró. Quando a chuva cessou, os moradores aninharam-se na rua para contemplar o sol que havia se ausentado por aquelas bandas. Dona Marieta, esboçava no semblante um sorriso radioso como quem houvera esquecido o peso dos anos e regressado à infância. A vida voltava a seguir o seu ritmo costumeiro naquele lugarejo onde de tão longínquo, os moradores acreditavam que Deus havia lhes esquecido. Lêdo engano!

Já eu com minha memória falível, quase que ia me olvidando de Heloísa. Pois bem, diletos leitores, as lágrimas de Heloísa secaram no instante em que a chuva parou. Como sua avó sempre lhe advertia, a chuva era bom sinal, significava purificação. Depois de pressentir o dilúvio que caía em sua morada interna, a moça não mais gotejou porque as águas lavaram e levaram a poeira que lhe estava alojada, obstruindo-a de respirar. Outrora, pesada, agora leve feito uma pluma.

Ao cruzar, de relance, com o espelho, o olhar de Heloísa ficara preso, estático ali. Ela se aproximou com o recato e calculismo de praxe, em direção ao objeto preferido de Narciso e percebeu que guardava o último resquício de César. Sem pestanejar, ao menos, ligeiramente limpou o respingo de sangue de sua face, borrifado da veia jugular de César. Ela havia se inclinado perto demais dele, naquela tarde tempestiva.
- É mais uma história de amor que chega ao fim. Foi melhor assim!, disse a moça com sua concisão de sempre.


Ana Karla Farias.



sábado, 26 de setembro de 2015

A CHAVE DA VIDA

               


           Passavam das quinze horas e fui tomar meu café habitual e solitário. Eu tomava minha xícara de café quase que concomitantemente com minha cerveja, e hesitei em pedir o refrigerante para não chamar tanto atenção, naquele dia , eu estava tímida. Eu conseguia estar feliz sozinha... Ahhhh... Sozinha.... Que maravilha! Eu e minha solidão eram companheiras inseparáveis, e fiéis, e leais. Até que um indivíduo misantropo me interrompeu:
_ A chave.
            Olhei para as mesas ao lado e o que vi foram pessoas conversando, rindo alto, gesticulando e, a um metro de distância, um olhar sério e focado em mim. Eu não conhecia aquele homem. Nunca o tinha visto. Decerto, não tinha falado comigo...  Eu tinha ouvido errado. Voltei-me para meu café quente e minha cerveja gelada e, agora, já tinha chegado o momento de pedir o refrigerante para que eu pudesse combinar com os sabores anteriores. Eu olhava penetrantemente para as bolhas do café, para as gotas de água que desciam sobre a garrafa de cerveja, e tomava meu ´´refri.`` que já tinha chegado.
_ A chave.
         Ora! Eu acabava de ouvir novamente aquela voz! Aquela voz como se fosse um pedido ou uma interrogação, não se sabia muito bem. Como se fosse a expressão de algo desconhecido, algo curioso, e também inquietante para mim.  Levantei o olhar novamente e o mesmo indivíduo permanecia posicionado frontalmente a mim com um olhar desconfortante, súplico e quase fantasmagórico... Eu não sabia explicar. Dessa vez, ele estava mais próximo de minha mesa.
          Eu fiz a mesma análise de antes: olhei para os lados. Eu queria saber se aquele sujeito falava realmente comigo, se era eu o alvo de sua verbalização. No entanto, diferente da primeira vez, eu fiz uma observação um pouco mais detalhada: eu quis saber se somente eu via aquela figura, se somente eu estava percebendo aquela imagem humana. É, eu devia estar louca.
          Para saber se o homem ali estava tentando falar comigo, em fração de segundo, elaborei um plano, um teste. Levantei e fui até o balcão. Vejam bem.
Enquanto eu fingia estar interessada nos chocolates, eu pude sentir um olhar percorrer cada ato meu; eu podia sentir e ouvir a voz daquele ser dizendo o que insistia dizer. Rapidamente, olhei e percebi que ele continuava a me encarar. Ele, o ser desconhecido, permanecia com um ar sóbrio e fixamente atento a mim. Comecei, então, a sentir um leve desconforto...  Parecia que para ele, para o indivíduo, somente havia eu ali e mais ninguém. Para ele, eu era a única pessoa que existia. Ele não conseguia acessar a mais ninguém. Perguntei a moça do balcão o que aquele homem queria, pois há um certo tempo, ele estava parado, em pé, e poderia estar esperando atendimento (esta foi a desculpa esfarrapada que inventei para saber se a moça também conseguia ver aquele homem), e para minha surpresa, ela me ignorou completamente. O lugar estava lotado e, apesar de ela tentar atender a todos com presteza e atenção, era muito difícil agir assim.
_ A chave.
             Quando voltei para minha mesa, e eu já sabia que agora somente eu poderia vê-lo, continuei por poucos segundos a fingir que nada ouvia. Debalde. Logo ouvi pela terceira vez a insistente solicitação afirmativa e exclamativa, talvez.
            Dessa vez, quando resolvi encará-lo, percebi que agora, ele estava bem em frente a mim, bem ali, com ar sóbrio e sombrio. Sua face estava petrificada, mumificada. Não havia reação de sentimentos. Era um sujeito apático e de lábios finos, insistente e curioso. Estava vestido com um sobretudo cinza, chapéu, e permanecia com posição ereta, altiva e longos braços com mãos ao próprio corpo.  Não sei se realmente me pedia... se me pedisse algo, estaria com a mão estirada.                                         

                                                     
             Depois de um grave acidente em que fiquei por três anos completamente inconsciente, em vinte e quatro de setembro de 2015, eu saí do coma. dias depois, já recuperada, eu, minha família e amigos decidimos comemorar minha prodigiosa volta a este mundo em um café que tinha sido inaugurado enquanto eu estava hospitalizada, perto do meu novo trabalho. Quando saíamos do ambiente, esbarrei em um moço e ele deixou cair uma chave. Ele me pareceu familiar ... Gritei por ele, ele sorriu e disse:

_ A chave, minha querida...  Eu precisava dela... e de você.
 Eliane Vale


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Epidermicamente mortais




Você nunca vai me contar todos os seus segredos,

E eu sempre vou ter um medo reservado que me impedirá de me dar cruamente para você .

Não vamos conseguir ficar transparentes, porque ficar assim , dói.

E não queremos doer, não queremos...

Mas como sentir tudo que podemos sentir sem dar tudo de si, tudo que temos?

Que caminho sem volta...

Que caminho sem volta ...

Doemos ou não?

Se você arrancar meu coração, eu tenho dois segredos para dizer:

Eu tenho outro coração na escuridão, aquele que fica em segredo;

E também arranco sua alma até que sangre.

Consegue lidar com animais selvagens?

Consegue?

Já experimentou animais selvagens?

E se eu fugir repentinamente, desaparecer e fizer tudo errado, não é porque desisti, é porque eu não suportaria sentir mais do que eu estava sentindo.

Eu não tinha opção: eu tinha que fazer tudo errado para matar você dentro de mim.

Não tente me domar, é em vão.

Animais possuem garras e quando se sentem acuados, infelizmente, fazem duas coisas: ou fogem, ou avançam, e em qualquer dessas opções, machucam.

Se não puder sangrar, não venha.

Porque todo selvagem fica sem a pele, mas não desiste no ápice da luta.

Somente paramos, animais selvagens, somente param quando morre cada força.

Vingança? Não, não é.

É o desejo intenso de levá-lo a tudo que consigo sentir;

É o desejo que você queime tanto quanto eu.

Eu nunca prometi que seria eterno, mas eu também nunca prometi que não te mataria.


Eliane Vale.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O amor


Senti um aperto bem perto, no peito. Pensei que era um nó.

Até que descobri tentando desatar,

não era um nó que sufoca e aprisiona,era um laço que adorna


 e melhora o melhor de mim.





 por Ana Karla Farias.

Penetra-me



      Com o livro sobre o seu peito, dormia aquele corpo, esquecido de suas preocupações habituais do dia. Lá, Davi estava seminu.  Sempre foi hábito da mulher amada permanecer ao som de músicas que lhe dessem o estado de espírito necessário para suas reflexões.  Com o vento forte que soprava da janela, deixou o copo de vinho sobre a mesa e dirigiu-se até o quarto. À porta, percebeu a pouca luz da lua que recaía sobre o corpo dele. Antes de fechar a abertura material que conduzia aquela brisa levemente fria, cuidou para pegar o objeto de leitura do seu amado. O toque leve sobre seu peito, acordou-o. Agora, havia mais uma nova chance para o amor.

   


     Júlia, envolta de seus cabelos negros e longos, com roupas minúsculas que apresentavam a sua volúpia natural, sem nenhum recurso estético, era uma mulher sensual e dada a um homem de igual completude. O toque dela sobre o peito dele ascendeu-lhe o desejo de amá-la. Tão de prontamente, a feroz mulher penetrou-lhe o seu olhar, que traria qualquer deus ou santo para arder em seu purgatório úmido. Os lábios foram levemente encostados e passaram a ofertar beijos carnudos, ardentes, sequiosos, em que suas línguas começavam a dançar com cadência e ritmo. Davi recebeu toda aquela gratuidade de devassidão e a tomou pela cintura, pondo-a sentada sobre ele, de frente, com parte da blusa já expondo os seios e cabelos cobrindo parte da face, reluzindo a ursa, a indomável mulher. 


     Júlia beijou os lábios, o pescoço, e com sucção provocativa e olhos implacavelmente metidos nos dele, foi descendo, ao ponto que os seios cumpria o papel de roscar sobre o corpo seminu do seu homem.  Desceu e quis experimentar o gargalo daquele sexo, indo ao êxtase de sucção, mordidas e fricção manual. Sabia o que fazia... e COMO SABIA! Enquanto ela o saboreava, ele pouco conseguia pensar, ordenar desejos. Seu corpo respondia aos toques com pequenas convulsões de prazer, verborragia pornográfica e ditatorial, ao mesmo tempo que tinha vontade de dizer-lhe que não somente ela é que iria fazê-lo de escravo, subalterno.
       Com isso, retirou-a do gargalo com a mão agarrada na nuca. Conduziu-a para que se mantivesse deitada de costas, levemente inclinada, ao ponto que lhe pudesse tirar a tímida calcinha e poderia saborear aquela nudez.  Havia sofreguidão, ansiedade para que se visse desnuda e preenchida. Davi, deu de uma só vez o que ela merecia por ter se comportado tão impiedosamente, minutos antes.
Aiii...!
Ambos gritaram no ar. 
     
      Seria a vez dela, trepidar sobre brasa pontiaguda. Sentiu as duas mãos firmes a lhe segurar pela cintura e a lhe dar ordens de dança e balanço, e OBEDECIA, como adorava aquele tipo de obediência voraz, faminta e exploradora. Recebia os botes de bom grado e devolvia-os com segundos de aprisionamento. É, ela não seria tão de graça, é de sua natureza contra-atacar.



     Cada vez mais inclinada, sedenta e desafiadora, oferecia-se e ele, seduzido e penetrado na agudeza daquela carne, enfeitiçado por aquela bifurcação, gladiava com ela numa velocidade feroz que inundava seus corpos de suor, até que:
Isso amor, agora, vai...!!!!!



    Foi uníssono o ápice da paixão.
(Eliane Vale).


Do amor não correspondido




Seus olhos me fitam de uma forma que me deixam nua e que meu corpo sente arrepios que tento esconder; sente impulsos que prefiro combater. Como você pode me dizer tanto e partir?

Como pode dividir tanta intimidade comigo e partir para longe e me deixar nesse deserto sem sua presença?Não sou a mulher que se apaixona. Não sou a mulher que ama. Meu medo é uma grande ponte  necessária para que eu a atravesse, para que eu chegue a qualquer um ou qualquer um chegue a mim. Mas, veja!

Você atravessou a ponte e estou aqui, do outro lado sozinha.O que fazer com o nada que existe???O que fazer com o que você não me disse, não me fez?É sua inatividade que me machuca, só isso.

Eliane Vale.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Aquele par de olhos


Sempre andava de modo atarantado e os meus passos eram difíceis de serem acompanhados.
Olhos fugidios, não miravam um ponto inerte.
Amor era uma definição dos poemas drummondianos,
escapavam ao significado dos dicionários.

Nunca o sentira, por isso julgava mesmo ser algo impalpável ou uma dádiva para poucos.
O coração era coisa complexa, nele havia tantas emoções, desilusões e dores, que não haveria mais espaço nem para o que cabe no caixinha de costura.
Era um turbilhão de sentimentos que não se assemelhavam a amor,
pelo contrário eram resultantes de uma vida cotidiana de muitos pesares e afazeres.

Até que certa feita, quando o céu se cobrira de um manto alaranjado, fim de tarde que era, andando Cecília no mesmo ritmo apressado, na ânsia de voltar ao esconderijo da casa,
deparou-se com um par de olhos tão inebriantes que mais pareciam pedras de valor oneroso.
O modo atordoado tal como ela caminhava de costume quase a fez esbarrar naquele moço que correspondeu ao seu olhar com um sorriso tão suave como pétalas de rosas.

Foi quando ficou ela estática, mesmo tendo de pegar o próximo ônibus a caminho de casa, mas que importava se o transporte partisse?
Naquele instante era como se tudo ao redor houvesse paralisado e os ponteiros do relógio cessassem de bater o velho tic-tac.
Não pôde se aproximar daquele belo par de olhos, mas o guiou,
estática no seu canto, até que ele seguisse seu itinerário e desaparecesse ao longe, onde visão da moça não mais pudesse alcançá-lo.

Ali naquela tarde alaranjada, descobriu Cecília que em vão  tentava descobrir um conceito para o amor,posto que não há como entendê-lo,
descobrir suas razões de existir, mas tão somente se pode senti-lo.
Ainda que ele tenha a fugacidade de um cometa ou não se personifique num rosto, o amor é um estado de espírito.

Mesmo que seja dado de graça ou à uma profunda ingratidão como mencionava o poeta mineiro,
ama-se porque se ama, destituído de qualquer racionalidade e ponto final.
Até hoje ela sai às ruas, mas desta vez, com passos curtos e leves,
à espera de que o amor nela esbarre novamente.

Sem explicação, inesperado e semeado ao vento.
Por falar em vento, essa brisa vespertina lhe traz uns arrepios, são reminiscências de um sentimento miraculoso.

Ana Karla Farias.

domingo, 20 de setembro de 2015

Palavras



Ferem de modo fulminante e a dor chega a ser pungente, mas além da face sórdida, do gosto amargo, as palavras quando proferidas podem fazer pés sobrevoarem às nuvens e reabilitar moribundos.

O poeta mineiro já alertava para suas artimanhas, elas têm mil faces secretas sob a face neutra.

Para descobrir é preciso aceitar o desafio de penetrar no seu reino.

Assim como moedas e como o ser humano, as palavras possuem dois lados.

Um deles pode ser dócil, curar feridas, levar luz onde há escuridão tenebrosa, revigorar
um tronco murcho, fazendo-o florescer em terras secas.

 A velha rosa que mesmo sem beleza brota do asfalto.

Mas ainda assim é uma rosa com toda sua doçura. 

O outro lado, ah esse, pode ser impiedoso.

Não ameniza o frio gélido e nem ilumina.

É preciso que as gritem e as expressem pelos cantos para que as palavrinhas
saiam do seu estado estático e de sua mudez.

Quietas e reprimidas como no dicionário, elas não causam impacto, estragos ou absolvição.
Bastando saírem do papel ou do pensamento para ganharem liberdade, algumas quando muito profundas se eternizam, pois ficam infinitamente gravadas no coração.

Ana Karla Farias.

Alunos da UFRN em Caicó desenvolvem projeto que leva arte e cultura à universidade

Estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), do Centro Regional de Ensino Superior do Seridó (CERES), juntamente com o Laboratório Internacional de Movimentos Sociais e Educação Popular (Lampear), estão realizando um projeto lúdico-cultural com a finalidade de tornar o espaço universitário, também um local de manifestação das diversas formas de arte. “Atualmente, algumas alunas e alunos do CERES estão organizando saraus de arte e cultura e, dessa maneira, procurando iluminar nossa universidade com o brilho de inspirações de vida. Estas iniciativas não são apenas louváveis sob o prisma de novos olhares sobre o conhecimento, mas imprescindíveis para os que almejam exercitar a própria arte de viver. Acredito que enquanto a maioria da comunidade acadêmica continua adormecida nas pulsões sombrias de morte - dinamizadas pela cultura de massa medíocre - existem grupos despertos para o amor, para a liberdade e para a emancipação social através da auto-organização da cultura popular”, explicou o professor e coordenador do Lampear, Fernando Bomfim.

A iniciativa do Lampear em realizar espaços de cultura e confraternização entre a comunidade acadêmica, foi recepcionada pelos alunos do curso de Direito de Caicó, que fizeram brotar o projeto “Os lírios não nascem da lei”. O intuito do grupo é desconstruir a imagem de que os acadêmicos de Direito só se interessam pela letra fria da lei. “A justiça não pode ser mecanizada, a ponto de um jurista apenas se ater a aplicar a Lei.
O profissional do Direito é aquele que luta para a concretização da justiça, de forma a solucionar os problemas da sociedade, sem olvidar situações únicas do indivíduo.
A poesia, assim como a justiça não generaliza, não discrimina.
Então " Os lírios" buscam na poesia, a sensibilidade necessária para se fazer justiça”, afirmou a estudante de Direito Marcela Cavalcante. Opinião compartilhada também por Kattarine Lucena, aluna de Direito. “O projeto dos lírios é uma alternativa à letra fria da lei e, sobretudo, uma tentativa de incentivar a cultura no nosso espaço acadêmico”, pontuou.

Evento teve participação de trovadora da Academia de Trovas do RN


O sarau do projeto idealizado pelos alunos de Direito, intitulado “Os lírios não nascem da lei”, conjuntamente com o sarau do Lampear ocorrem semanalmente na própria universidade, reunindo música, declamação de versos e exposição de desenhos artísticos e pinturas. Na última sexta-feira (18), às 18h, o evento contou com a participação da trovadora caicoense e membro da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, Mara Meline Garcia. A trovadora foi vencedora de concursos locais, regionais e nacionais de trovas, dentre os quais, o de Nova Friburgo/RJ, capital nacional da trova, de Curitiba e Cantagalo/RJ. 

O estranho que habita em mim




                             
De repente, numa manhã qualquer, acordei.
Quando fitei meu rosto no espelho como de costume, 
não vi minha imagem ali refletida.
Eram pares de olhos assustados, um rosto esguio 
e o gosto na boca que a imagem não revelava,
 não era doce nem amargo, era tão-somente insípido.

Onde estava perdida minha identidade?
Em que espelho? Em que tempo?
Só agora me dei por essa mudança.

Quando a aurora preludiu um novo amanhecer, 
caminhei a passos lentos e incertos em direção ao espelho. 
Estava eu temeroso com a imagem que o objeto mostrar-me-ia.
Meu corpo estremeceu.
Vislumbrei, desta feita, o sorriso de um garoto faceiro
A alegria que resvalava de seu semblante era tanta,
que quase conseguia ouvir o burburinho de sua gargalhada.
Era a minha imagem, de um sorriso que esbocei na infância.

Eu, enfim, reinventei-me
e foi em meio ao distanciamento entre mim e minha essência,
depois de tanto me perder, me subtrair, me amputar,
que eu me reencontrei.
Durante muito tempo, portei-me feito máquina e é aí que a alma padece.


(Ana Karla Farias).

sábado, 19 de setembro de 2015

MEU LIXO


     





             
            Faz tempo que reluto em lhes dizer o que digo. Eu sei que sou linguaruda e já disse isso, de modo que todos vocês sabem que sou. Mas ao mesmo tempo que sou linguaruda, digo-lhes também que não digo tudo. É, eu não digo tudo. Porque tem coisas que não dizemos tudo, tem coisas que não são traduzidas, codificadas na escrita. Eu sei que vocês têm coisas inauditas, insonoras. Pois bem. O que me perturba é exatamente isto: aquilo que não dizemos.  Mas hoje, como não saiu de meu pensamento, digo-lhes isso porque estou em busca da solução para o que sinto e, como sei que vocês são bem mais espertos do que eu, bem mais inteligentes do que eu, penso que ao cabo disso que digo, receberei a solução. O caso foi o seguinte.
             
             Hoje eu varri a sala. Varri a sala como faço sempre, varri a sala como vocês varrem a sala de vocês. Vejam, é coisa muito cotidiana varrer a sala, todo mundo varre a sala e nisso, não há nada de esquisito, esquisito para alguns é não varrer a sala. Acho que é isso, como dizem, o grande X da questão. Nunca vemos o cotidiano como algo extraordinário, excêntrico, fabuloso, novato. O cotidiano, por ser cotidiano, é sempre algo muito comum, fácil, reles, sem importância e, com isso, não vemos que, o cotidiano pode guardar em si, algo terrivelmente ou não, também extraordinário. Se chegarmos mais perto, bem mais perto, o cotidiano deixa de ser cotidiano, ele não é tão simples, ele pode ser mais complexo, porque se esconde através de uma capa grossa de normalidade quando, na verdade, nunca fora. Compreendem o que digo?

            Pois foi isso que aconteceu. Eu varri a sala. E não sei o que aconteceu, mas eu juro a vocês que eu varri exatamente igual a todas às vezes que eu varro, eu não varri diferente, não usei uma vassoura nova, ou algo diferente, apenas varri, simples, comum e cotidianamente. O que houve foi que, quando eu peguei o cabo da vassoura e, em seguida, guardei-a por trás da porta, ocorreu-me algo inusitado. Eu não conseguia guardar direito a vassoura. Naquele exato momento, fui acometida por uma profunda inquietação. Logo eu que, sempre varria a sala e colocava o lixo debaixo do tapete, eu que, fazia isso sempre sem ao menos perceber ou sentir qualquer incômodo, agora, não sei por que agora estava incomodada com aquilo...              
 
         Por que estava incomodada com aquilo? Por que o lixo que eu acabava de empurrar debaixo do tapete me incomodava tanto?  Parece que o que eu havia colocado debaixo do tapete era meu. Eu, parada perto da porta e com olhar direcionado à sala, fitava o tapete e imaginava a quantidade de lixo que eu tinha posto debaixo daquele tapete. Muitas indagações me vinham à cabeça, inúmeras! Pensava eu que, será que somente eu coloco lixos debaixo dos tapetes? Será que somente eu varria a sala? Por que eu somente varria a sala? Qual a importância da sala? E aquele pensamento foi ficando cada vez mais profundo, cada vez mais foi se avolumando como se me levasse a um buraco negro, escuro. Eu continuava parada, estática. Comecei ainda a pensar que se eu varria somente a sala, então, decerto outros lixos deveriam existir na casa. CLARO!!! Havia outros lixos na casa, talvez muito mais encrustados, densos e difíceis. Como eu nunca percebi isso? Como??? O que estava acontecendo comigo naquele exato momento??? Teria alguma explicação???

         Minhas divagações continuavam ao passo que minha inquietação crescia porque, antes, eu não tinha conhecimento do lixo, eu sabia que era lixo, mas eu não sabia da importância do lixo, eu não sabia a razão de eu o colocar debaixo do tapete e, pior, eu não tinha me dado conta que havia lixos em outros lugares da casa que nem eu mesma, dona e reprodutora dos mesmos, sabia!!! Era muito grave toda aquela descoberta! Tão grave que, por mais que meu medo fosse estratosférico, eu precisaria me aproximar do tapete, do lixo que estava bem ali em baixo, eu não tinha escolha!!! Eu sabia a existência do lixo e eu precisava fazer alguma coisa!!!
         
          Respirei fundo e fui me afastando da porta, lentamente. Meu coração ia disparando cada vez mais em que eu chegava perto do tapete, minhas mãos iam ficando trêmulas e suadas. Agora, eu estava bem perto do lixo, bem perto. E o grande momento, talvez o grande momento, depois da descoberta dele, fosse o que estava para acontecer: eu precisava levantar o tapete e encará-lo. Permaneci ereta na sala. O meu indicador e meu polegar se ajuntaram para pegar a ponta do tapete e, como se eu estivesse a pegar em algo muito nojento e asqueroso, assim fiz: levantei a ponta do tapete.

             Eu gostaria muito de descobrir se vocês, bem mais inteligentes e espertos do que eu, já fizeram isso, já levantaram a ponta do tapete onde vocês guardam seus próprios lixos. Eu não estou desafiando ninguém a fazer isso. Entendam-me. É que, quando eu faço isso, eu me sinto muito sozinha, eu não ouço que ninguém diga que levantou a ponta do seu próprio tapete ou se, varreu seu lixo para debaixo do tapete. Ninguém me conta sobre essas coisas. Daí, eu suspeito que não me contam ou eu não sei a existência de que outras pessoas façam isso porque simplesmente elas fazem sozinhas! É isso, elas não contam a ninguém que varrem apenas a sala, elas não contam a ninguém que colocam todo o santo dia o lixo debaixo do tapete e que, eu somente lhes conto isso porque sou prolixa, apesar de também não contar tudo, e conto tudo do pouco. Veja, eu estou contando por pura sorte mesmo, porque, igualmente a vocês, eu também ficaria aqui, sem ninguém saber.
            O que ocorreu foi que quando levantei a ponta do tapete, eu vi algumas coisas absurdas e outras não. Tinha muito lixo esquecido lá, coisas que nem eu mesma sabia de sua existência! Tinha lixo para tudo que era gosto e governo. Eu estava com muito medo, eu juro. Um medo muito grande de encontrar coisas das quais eu não gostaria...  E adivinhem? Foi o que mais encontrei. Ao passo que me aproximava daquela observação medonha, abstrata e estranha, vi que existiam lixos que apesar de eu os ter colocado lá, eles ainda me acompanhavam. Como? Eu tinha guardado muito sentimento debaixo daquele tapete. Muita coisa que me deixava triste, amarga, decepcionada, AM- PU - TA - DA. Todos os lixos, estranhamente quando guardados, deixam-nos amputados, essa é a palavra. É que eles estão debaixo do tapete apenas fisicamente, mas existe uma parte deles conosco. Nós somos tudo aquilo que deixamos de ser ou de fazer por causa do que existe debaixo do tapete. O que existe debaixo do tapete é muito perigoso, é um terrível inimigo, ele pode acabar com sua vida, ele pode impedir que você seja quem você é, justamente porque você colocou lá, esquecido. Percebam que, o lixo é lixo não porque necessariamente seja sujo, ou sem valor. O lixo pode ser lixo porque se torna esquecido, desvalorizado. É uma parte de você, SIM, é uma parte de vocês lá, jogada às traças, às baratas. E DIGO MAIS, VOCÊ NÃO VAI SER FELIZ ENQUANTO NÃO LEVANTAR O TAPETE E TIRÁ-LO DE LÁ. VOCÊ NÃO VAI. A SUA ESPERANÇA DE FELICIDADE NESTA VIDA É APENAS UMA: SER INTEGRAL.

     Fui a mim mesma incentivando a levantar o tapete, coisa que não é fácil. E acreditem: quanto lixo ainda possuía sabor, cheiro e cor! Quanto! Era incrível!! O medo, de primeiro momento, foi dando espaço a um prazer, a um saudosismo, a um momento de pura identidade, de definição, de ser eu, era eu agora, totalmente. Eu era lixo!!! Também era aquele lixo!!! Eu tinha me esquecido de ser quem eu era e para que vim ser quem sou. Agora, era preciso somente ajustar alguma vassoura. Agora, eu estava disposta a varrer a casa inteira e, muito feliz por isso! Eu estava completamente disposta, alegre, satisfeita por sair varrendo e colocar o lixo, bem ali no meio da sala!!! Destruam os tapetes!!! Destruam-nos!!!! Quero todos os lixos na sala, bem no meio, para que o visitante de minha casa veja que, agora, eu varro é pra fora.


_ Eliane Vale

Eu sou apenas eu em mim










Quando estamos no nosso próprio caminho, quando estamos em busca de nós mesmos e nos embrenhamo-nos no espaço do eu e de todos os sentidos que ele carrega, o outro deixa de ser extensão, necessidade.

Quando finalmente é possível compreender o quanto somos importantes, importantes apenas em nós, dentro de nós e, ao mesmo tempo, temos a total consciência de que somos desimportantes e desnecessários para o mundo e para o outro, o que se adquire é um desejo genuíno e prazeroso de se pertencer; é um ato quase egoísta.

Quando vamos avançando no conhecimento de que somos muito pouco, muito reles e que essa pequenez é o que possuímos, e que essa efemeridade é a marca indelével deste corpo pútrido, a urgência para ser é uma ditadura.

Quando se chega nesse ponto_ que nada palpável é eterno, mas que algo em nós pode ser_ muitas coisas ganham sentido, e outras perdem completamente.
A nossa materialidade é incrivelmente substituível e volátil, mas existe algo em nós que pode transmutar.

Pertençam-se! Pertençam-se profundamente e nada poderá lhes faltar, pois estamos em uma viagem com um único passageiro; incrivelmente sós, incrivelmente individualizados e únicos.

_ Eliane Vale

terça-feira, 15 de setembro de 2015

QUEM É VOCÊ ?


QUEM É VOCÊ

O grande problema das coisas
O grande problema de tudo é que eu não cabia
Eu não cabia nos lugares
Eu não cabia nas pessoas
Eu não cabia nem em mim
Nem
Em
Mim...
Mim...

Era uma espécie de sobra, esborrotamento, fluidez..
E fui não cabendo até que percebi que não caber era de minha natureza
Eu era o ´´não caber``
O todo
O sobrar
O extenso
O escapadiço
O fugidio

E quando ninguém podia me pertencer,
Percebi que eu tinha que entrar
Eu tinha que mergulhar em mim
Porque se não havia espaços laterais
Não me restava um dúvida sequer, a menor dúvida
Que o que eu tinha era profundidade
É tão denso esse mergulho que me causa sufocamento
É tão escuro que não existem portas; que não há luz

Eu não tinha arestas
Nem horizontal
Era vertical, uma moça vertical e inclinada
Declinada em si

E se antes eu não cabia
Agora , eu só poderia mergulhar e percorrer essa vasta e infinita escuridão
E tudo que me ocorre é simples, complexo, fatídico, prazeroso, mórbido, orgasmático.
Eu só estou desaparecendo...
Desaparecendo....
Aparecendo...
Sendo...

_ Eliane Vale.