De repente, numa manhã qualquer, acordei.
Quando fitei meu rosto no espelho como de costume,
não vi minha imagem ali refletida.
Eram pares de olhos assustados, um rosto esguio
e o gosto na boca que a imagem não revelava,
não era doce nem amargo, era tão-somente insípido.
Onde estava perdida minha identidade?
Em que espelho? Em que tempo?
Só agora me dei por essa mudança.
Quando a aurora preludiu um novo amanhecer,
caminhei a passos lentos e incertos em direção ao espelho.
Estava eu temeroso com a imagem que o objeto mostrar-me-ia.
Meu corpo estremeceu.
Vislumbrei, desta feita, o sorriso de um garoto faceiro
A alegria que resvalava de seu semblante era tanta,
que quase conseguia ouvir o burburinho de sua gargalhada.
Era a minha imagem, de um sorriso que esbocei na infância.
Eu, enfim, reinventei-me
e foi em meio ao distanciamento entre mim e minha essência,
depois de tanto me perder, me subtrair, me amputar,
que eu me reencontrei.
Durante muito tempo, portei-me feito máquina e é aí que a alma padece.
(Ana Karla Farias).


Nenhum comentário:
Postar um comentário