QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Aquele par de olhos


Sempre andava de modo atarantado e os meus passos eram difíceis de serem acompanhados.
Olhos fugidios, não miravam um ponto inerte.
Amor era uma definição dos poemas drummondianos,
escapavam ao significado dos dicionários.

Nunca o sentira, por isso julgava mesmo ser algo impalpável ou uma dádiva para poucos.
O coração era coisa complexa, nele havia tantas emoções, desilusões e dores, que não haveria mais espaço nem para o que cabe no caixinha de costura.
Era um turbilhão de sentimentos que não se assemelhavam a amor,
pelo contrário eram resultantes de uma vida cotidiana de muitos pesares e afazeres.

Até que certa feita, quando o céu se cobrira de um manto alaranjado, fim de tarde que era, andando Cecília no mesmo ritmo apressado, na ânsia de voltar ao esconderijo da casa,
deparou-se com um par de olhos tão inebriantes que mais pareciam pedras de valor oneroso.
O modo atordoado tal como ela caminhava de costume quase a fez esbarrar naquele moço que correspondeu ao seu olhar com um sorriso tão suave como pétalas de rosas.

Foi quando ficou ela estática, mesmo tendo de pegar o próximo ônibus a caminho de casa, mas que importava se o transporte partisse?
Naquele instante era como se tudo ao redor houvesse paralisado e os ponteiros do relógio cessassem de bater o velho tic-tac.
Não pôde se aproximar daquele belo par de olhos, mas o guiou,
estática no seu canto, até que ele seguisse seu itinerário e desaparecesse ao longe, onde visão da moça não mais pudesse alcançá-lo.

Ali naquela tarde alaranjada, descobriu Cecília que em vão  tentava descobrir um conceito para o amor,posto que não há como entendê-lo,
descobrir suas razões de existir, mas tão somente se pode senti-lo.
Ainda que ele tenha a fugacidade de um cometa ou não se personifique num rosto, o amor é um estado de espírito.

Mesmo que seja dado de graça ou à uma profunda ingratidão como mencionava o poeta mineiro,
ama-se porque se ama, destituído de qualquer racionalidade e ponto final.
Até hoje ela sai às ruas, mas desta vez, com passos curtos e leves,
à espera de que o amor nela esbarre novamente.

Sem explicação, inesperado e semeado ao vento.
Por falar em vento, essa brisa vespertina lhe traz uns arrepios, são reminiscências de um sentimento miraculoso.

Ana Karla Farias.

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