Sempre andava de modo atarantado e os meus passos eram difíceis de serem acompanhados.
Olhos fugidios, não miravam um ponto inerte.
Amor era uma definição dos poemas drummondianos,
escapavam ao significado dos dicionários.
Nunca o sentira, por isso julgava mesmo ser algo impalpável ou uma dádiva para poucos.
O coração era coisa complexa, nele havia tantas emoções, desilusões e dores, que não haveria mais espaço nem para o que cabe no caixinha de costura.
Era um turbilhão de sentimentos que não se assemelhavam a amor,
pelo contrário eram resultantes de uma vida cotidiana de muitos pesares e afazeres.
Até que certa feita, quando o céu se cobrira de um manto alaranjado, fim de tarde que era, andando Cecília no mesmo ritmo apressado, na ânsia de voltar ao esconderijo da casa,
deparou-se com um par de olhos tão inebriantes que mais pareciam pedras de valor oneroso.
O modo atordoado tal como ela caminhava de costume quase a fez esbarrar naquele moço que correspondeu ao seu olhar com um sorriso tão suave como pétalas de rosas.
Foi quando ficou ela estática, mesmo tendo de pegar o próximo ônibus a caminho de casa, mas que importava se o transporte partisse?
Naquele instante era como se tudo ao redor houvesse paralisado e os ponteiros do relógio cessassem de bater o velho tic-tac.
Não pôde se aproximar daquele belo par de olhos, mas o guiou,
estática no seu canto, até que ele seguisse seu itinerário e desaparecesse ao longe, onde visão da moça não mais pudesse alcançá-lo.
Ali naquela tarde alaranjada, descobriu Cecília que em vão tentava descobrir um conceito para o amor,posto que não há como entendê-lo,
descobrir suas razões de existir, mas tão somente se pode senti-lo.
Ainda que ele tenha a fugacidade de um cometa ou não se personifique num rosto, o amor é um estado de espírito.
Mesmo que seja dado de graça ou à uma profunda ingratidão como mencionava o poeta mineiro,
ama-se porque se ama, destituído de qualquer racionalidade e ponto final.
Até hoje ela sai às ruas, mas desta vez, com passos curtos e leves,
à espera de que o amor nela esbarre novamente.
Sem explicação, inesperado e semeado ao vento.
Por falar em vento, essa brisa vespertina lhe traz uns arrepios, são reminiscências de um sentimento miraculoso.
Ana Karla Farias.

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