QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?

sábado, 26 de setembro de 2015

A CHAVE DA VIDA

               


           Passavam das quinze horas e fui tomar meu café habitual e solitário. Eu tomava minha xícara de café quase que concomitantemente com minha cerveja, e hesitei em pedir o refrigerante para não chamar tanto atenção, naquele dia , eu estava tímida. Eu conseguia estar feliz sozinha... Ahhhh... Sozinha.... Que maravilha! Eu e minha solidão eram companheiras inseparáveis, e fiéis, e leais. Até que um indivíduo misantropo me interrompeu:
_ A chave.
            Olhei para as mesas ao lado e o que vi foram pessoas conversando, rindo alto, gesticulando e, a um metro de distância, um olhar sério e focado em mim. Eu não conhecia aquele homem. Nunca o tinha visto. Decerto, não tinha falado comigo...  Eu tinha ouvido errado. Voltei-me para meu café quente e minha cerveja gelada e, agora, já tinha chegado o momento de pedir o refrigerante para que eu pudesse combinar com os sabores anteriores. Eu olhava penetrantemente para as bolhas do café, para as gotas de água que desciam sobre a garrafa de cerveja, e tomava meu ´´refri.`` que já tinha chegado.
_ A chave.
         Ora! Eu acabava de ouvir novamente aquela voz! Aquela voz como se fosse um pedido ou uma interrogação, não se sabia muito bem. Como se fosse a expressão de algo desconhecido, algo curioso, e também inquietante para mim.  Levantei o olhar novamente e o mesmo indivíduo permanecia posicionado frontalmente a mim com um olhar desconfortante, súplico e quase fantasmagórico... Eu não sabia explicar. Dessa vez, ele estava mais próximo de minha mesa.
          Eu fiz a mesma análise de antes: olhei para os lados. Eu queria saber se aquele sujeito falava realmente comigo, se era eu o alvo de sua verbalização. No entanto, diferente da primeira vez, eu fiz uma observação um pouco mais detalhada: eu quis saber se somente eu via aquela figura, se somente eu estava percebendo aquela imagem humana. É, eu devia estar louca.
          Para saber se o homem ali estava tentando falar comigo, em fração de segundo, elaborei um plano, um teste. Levantei e fui até o balcão. Vejam bem.
Enquanto eu fingia estar interessada nos chocolates, eu pude sentir um olhar percorrer cada ato meu; eu podia sentir e ouvir a voz daquele ser dizendo o que insistia dizer. Rapidamente, olhei e percebi que ele continuava a me encarar. Ele, o ser desconhecido, permanecia com um ar sóbrio e fixamente atento a mim. Comecei, então, a sentir um leve desconforto...  Parecia que para ele, para o indivíduo, somente havia eu ali e mais ninguém. Para ele, eu era a única pessoa que existia. Ele não conseguia acessar a mais ninguém. Perguntei a moça do balcão o que aquele homem queria, pois há um certo tempo, ele estava parado, em pé, e poderia estar esperando atendimento (esta foi a desculpa esfarrapada que inventei para saber se a moça também conseguia ver aquele homem), e para minha surpresa, ela me ignorou completamente. O lugar estava lotado e, apesar de ela tentar atender a todos com presteza e atenção, era muito difícil agir assim.
_ A chave.
             Quando voltei para minha mesa, e eu já sabia que agora somente eu poderia vê-lo, continuei por poucos segundos a fingir que nada ouvia. Debalde. Logo ouvi pela terceira vez a insistente solicitação afirmativa e exclamativa, talvez.
            Dessa vez, quando resolvi encará-lo, percebi que agora, ele estava bem em frente a mim, bem ali, com ar sóbrio e sombrio. Sua face estava petrificada, mumificada. Não havia reação de sentimentos. Era um sujeito apático e de lábios finos, insistente e curioso. Estava vestido com um sobretudo cinza, chapéu, e permanecia com posição ereta, altiva e longos braços com mãos ao próprio corpo.  Não sei se realmente me pedia... se me pedisse algo, estaria com a mão estirada.                                         

                                                     
             Depois de um grave acidente em que fiquei por três anos completamente inconsciente, em vinte e quatro de setembro de 2015, eu saí do coma. dias depois, já recuperada, eu, minha família e amigos decidimos comemorar minha prodigiosa volta a este mundo em um café que tinha sido inaugurado enquanto eu estava hospitalizada, perto do meu novo trabalho. Quando saíamos do ambiente, esbarrei em um moço e ele deixou cair uma chave. Ele me pareceu familiar ... Gritei por ele, ele sorriu e disse:

_ A chave, minha querida...  Eu precisava dela... e de você.
 Eliane Vale


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