Ferem de modo fulminante e a dor chega a ser pungente, mas além da face sórdida, do gosto amargo, as palavras quando proferidas podem fazer pés sobrevoarem às nuvens e reabilitar moribundos.
O poeta mineiro já alertava para suas artimanhas, elas têm mil faces secretas sob a face neutra.
Para descobrir é preciso aceitar o desafio de penetrar no seu reino.
Assim como moedas e como o ser humano, as palavras possuem dois lados.
Um deles pode ser dócil, curar feridas, levar luz onde há escuridão tenebrosa, revigorar
um tronco murcho, fazendo-o florescer em terras secas.
A velha rosa que mesmo sem beleza brota do asfalto.
Mas ainda assim é uma rosa com toda sua doçura.
O outro lado, ah esse, pode ser impiedoso.
Não ameniza o frio gélido e nem ilumina.
É preciso que as gritem e as expressem pelos cantos para que as palavrinhas
saiam do seu estado estático e de sua mudez.
Quietas e reprimidas como no dicionário, elas não causam impacto, estragos ou absolvição.
Bastando saírem do papel ou do pensamento para ganharem liberdade, algumas quando muito profundas se eternizam, pois ficam infinitamente gravadas no coração.

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