Em terra árida onde o sol castiga o ano inteiro, a chuva é
considerada literalmente um presente dos céus, uma recompensa
divina, um sinal de que Deus está satisfeito com as ações humanas.
Como há muito tempo, naquele início de tarde desabou um dilúvio.
Os pequenos para os quais aquela porção de chuva era algo
estapafúrdio e inusitado, ficaram intimidados, observando da janela
o cair de tanta água. Não sabiam ao certo por que, repentinamente,
os céus puseram-se a chorar, mas cogitavam em seus mundos
imaginários, que decorria de uma causa alegre. Afinal, dona Marieta,
a matriarca da família, estava tão faceira que não se quedava
quieta, contemplando o fenômeno miraculoso da natureza:
-
Vão meninos, brincar na chuva. Essa meninada não sabe mais o que é
ser criança. Na minha época, a gente corria pra rua.
Dona Marieta como era conhecida na cidade, morava com sua filha mais
velha e três netos, dentre os quais estava Heloísa, que ainda lhes será apresentada, caros leitores. A septuagenária acusava os netos
de estarem sendo ingratos à tamanha prova de generosidade de Deus:
-Deus
manda uma bênção dessas e vocês ficam aí parados. Não sabem
agradecer aos presentes que recebem?
Quando caminhava em direção à porta, a passos tímidos,
denunciando sinais do afã de uma vida árdua, dedicada ao trabalho e
às prendas domésticas, Marieta esbarra na neta mais velha. Heloísa
chegou com as vestes encharcadas e numa pressa incomum como quem foge
de um algoz.
-
Que deu nessa menina? Que pressa é essa? Parece que viu
assombração.
Com seu jeito peculiar de quem gosta de sínteses e de parcas
palavras, Heloísa responde:
-Foi
melhor assim.
Trancafiada
no quarto, a moça agarrou uma foto do namorado César e apertou-a contra
seu peito com demasiada fúria, que se objeto tivesse braços,
estariam agora entrelaçados. Os pingos de chuva não despencavam
somente lá fora, Heloísa sentia que chovia também dentro dela. O
tempo era de tempestade e resvalava no interior daquelas almas.
Agora, compreendeu por que seu vestido estava ali molhado, respingando pelo chão do quarto.
-Como
hei de matar o que há de você dentro de mim?, indagava aos prantos e
soluços.
Passaram-se dois dias de toró. Quando a chuva cessou, os moradores
aninharam-se na rua para contemplar o sol que havia se ausentado por
aquelas bandas. Dona Marieta, esboçava no semblante um sorriso
radioso como quem houvera esquecido o peso dos anos e regressado à
infância. A vida voltava a seguir o seu ritmo costumeiro naquele
lugarejo onde de tão longínquo, os moradores acreditavam que Deus
havia lhes esquecido. Lêdo engano!
Já eu com minha memória falível, quase que ia me olvidando de
Heloísa. Pois bem, diletos leitores, as lágrimas de Heloísa
secaram no instante em que a chuva parou. Como sua avó sempre lhe
advertia, a chuva era bom sinal, significava purificação. Depois de
pressentir o dilúvio que caía em sua morada interna, a moça não mais
gotejou porque as águas lavaram e levaram a poeira que lhe estava
alojada, obstruindo-a de respirar. Outrora, pesada, agora leve feito
uma pluma.
Ao cruzar, de relance, com o espelho, o olhar de Heloísa ficara
preso, estático ali. Ela se aproximou com o recato e calculismo de
praxe, em direção ao objeto preferido de Narciso e percebeu que guardava o último
resquício de César. Sem pestanejar, ao menos, ligeiramente limpou o
respingo de sangue de sua face, borrifado da veia jugular de César. Ela havia se inclinado perto demais
dele, naquela tarde tempestiva.
- É mais uma história de amor que chega ao fim. Foi melhor assim!,
disse a moça com sua concisão de sempre.
Ana Karla Farias.

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