QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Apenas mais uma história de amor



 Em terra árida onde o sol castiga o ano inteiro, a chuva é considerada literalmente um presente dos céus, uma recompensa divina, um sinal de que Deus está satisfeito com as ações humanas. Como há muito tempo, naquele início de tarde desabou um dilúvio.

Os pequenos para os quais aquela porção de chuva era algo estapafúrdio e inusitado, ficaram intimidados, observando da janela o cair de tanta água. Não sabiam ao certo por que, repentinamente, os céus puseram-se a chorar, mas cogitavam em seus mundos imaginários, que decorria de uma causa alegre. Afinal, dona Marieta, a matriarca da família, estava tão faceira que não se quedava quieta, contemplando o fenômeno miraculoso da natureza:

- Vão meninos, brincar na chuva. Essa meninada não sabe mais o que é ser criança. Na minha época, a gente corria pra rua.

Dona Marieta como era conhecida na cidade, morava com sua filha mais velha e três netos, dentre os quais estava Heloísa, que ainda lhes será apresentada, caros leitores. A septuagenária acusava os netos de estarem sendo ingratos à tamanha prova de generosidade de Deus:
-Deus manda uma bênção dessas e vocês ficam aí parados. Não sabem agradecer aos presentes que recebem?

Quando caminhava em direção à porta, a passos tímidos, denunciando sinais do afã de uma vida árdua, dedicada ao trabalho e às prendas domésticas, Marieta esbarra na neta mais velha. Heloísa chegou com as vestes encharcadas e numa pressa incomum como quem foge de um algoz.
- Que deu nessa menina? Que pressa é essa? Parece que viu assombração.

Com seu jeito peculiar de quem gosta de sínteses e de parcas palavras, Heloísa responde:
-Foi melhor assim.

Trancafiada no quarto, a moça agarrou uma foto do namorado César e apertou-a contra seu peito com demasiada fúria, que se objeto tivesse braços, estariam agora entrelaçados. Os pingos de chuva não despencavam somente lá fora, Heloísa sentia que chovia também dentro dela. O tempo era de tempestade e resvalava no interior daquelas almas. Agora, compreendeu por que seu vestido estava ali molhado, respingando pelo chão do quarto.

-Como hei de matar o que há de você dentro de mim?, indagava aos prantos e soluços.

Passaram-se dois dias de toró. Quando a chuva cessou, os moradores aninharam-se na rua para contemplar o sol que havia se ausentado por aquelas bandas. Dona Marieta, esboçava no semblante um sorriso radioso como quem houvera esquecido o peso dos anos e regressado à infância. A vida voltava a seguir o seu ritmo costumeiro naquele lugarejo onde de tão longínquo, os moradores acreditavam que Deus havia lhes esquecido. Lêdo engano!

Já eu com minha memória falível, quase que ia me olvidando de Heloísa. Pois bem, diletos leitores, as lágrimas de Heloísa secaram no instante em que a chuva parou. Como sua avó sempre lhe advertia, a chuva era bom sinal, significava purificação. Depois de pressentir o dilúvio que caía em sua morada interna, a moça não mais gotejou porque as águas lavaram e levaram a poeira que lhe estava alojada, obstruindo-a de respirar. Outrora, pesada, agora leve feito uma pluma.

Ao cruzar, de relance, com o espelho, o olhar de Heloísa ficara preso, estático ali. Ela se aproximou com o recato e calculismo de praxe, em direção ao objeto preferido de Narciso e percebeu que guardava o último resquício de César. Sem pestanejar, ao menos, ligeiramente limpou o respingo de sangue de sua face, borrifado da veia jugular de César. Ela havia se inclinado perto demais dele, naquela tarde tempestiva.
- É mais uma história de amor que chega ao fim. Foi melhor assim!, disse a moça com sua concisão de sempre.


Ana Karla Farias.



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