
E se os olhos são as janelas da alma, então, a proposta é desenhar janelas para que almas saltem.
QUEM SOMOS NÓS?
O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
As cartas de Medeline.
Era impressionante! O que me separava dele eram irreparáveis
sete anos, sete anos! Muitas coisas ´´mudaram``, mas nada tão drasticamente
quanto a mim. O email, que pensava encontrar uma antiga pessoa, dizia coisas
assim: ´´ Faz muito tempo que estou pensando insistentemente em você, muito
tempo. Pode parecer insanidade minha, mas o pensamento sobre você me assalta de
uma forma, digamos assim, quase violenta que o que me resta é buscar
alternativas que me façam esquecê-la, tentativas vãs são o que são. Eu não
sabia como você reagiria, aliás, nesse exato momento que escrevo isso, continuo
sem saber, no entanto, prossigo com essas linhas, porque já não posso fugir de
mim mesmo. Lembro-me que você, desde daquela época já dava sinais de ser quem
viria a ser... Você dizia: é possível
fugir de muita coisa, exceto de nossa própria essência. Percebo, então, que a
sua essência não foi posta de lado, minha amiga. Percebo, também, que no passado,
para você, eu fiquei. Eu já não sei se falo com a mesma pessoa ou com uma nova
pessoa, pois o tempo faz dessas coisas, no entanto, apesar de todos esses anos,
e com todas as minhas reiteradas tentativas de esquecimento, digo-lhe,
finalmente, que você não é uma saudade, pois se assim, eu dissesse, diria que
você passou e ficou na lembrança. O problema é justamente o contrário! Você,
apesar de todo esse tempo é PRESENÇA! Eu só não sei se já cheguei tarde
demais...``.
Não nego: estava assustada. Assustei-me por dois motivos: a
surpresa de ainda permanecer viva naquele homem deixava-me intrigada. Eu, em
hipótese alguma, poderia imaginar que àquela madrugada, a minha caixa de e-mail
me pregaria essa peça; o outro motivo era que ao longo de um e-mail com
incríveis cinco páginas, isso mesmo, cinco páginas, poderia haver menções,
fatos e uma pessoa que eu não mais reconhecia: eu. Parecia-me que o tempo tinha
tratado de fazer o que ele consegue fazer melhor: esquecer.
Eu li tudo aquilo, recheado de detalhes e recordações, mas
me perguntava de quem se tratava, pois, parecia que aquilo não se tratava mais
de mim, não era sobre mim que havia naquele e-mail. Eu não me via mais com
aquele sentimento, eu não mais me via com aquele coração. Eu tinha sido
acometida gravemente por uma doença que o havia roubado e de lá pra, conseguia
viver sem ele.
O tempo liga e quebra pontes, essa era a questão que me
revirava naquela madrugada natalina... O tempo quebrava pontes.... Refazia
outras... E nisso, exibia a artimanha de nos reconhecer e conhecer a nós diante
dos outros. E naquele momento, o que eu desejava de todo coração era saber se
ele ainda me reconhecia ou se me conhecia. Eu já não sabia se ele poderia me
reconhecer, conhecer.... Minha incógnita era: o que havia sobrado de mim de
setes anos atrás? O que havia sobrado? Dei-me por perceber que a casca exterior
havia ressecado. O mundo e o tempo trataram de nos colocar uma ponte. Travessia?
Não. Essa não era a questão.
Concluí que quantas e quantas pessoas passam por nós, isso
mesmo, passam. E ficam lá atrás, esquecidas, relegadas ao tempo e aos fatos que
as envolveram. Quantos de nós já não são as mesmas pessoas para tantos outros,
e não somos até para nós mesmos. Decerto, se eu encontrar meu antigo vizinho do
tempo que eu tinha dez anos, muito provavelmente ele não me reconhecerá e dirá
estupefato o quanto cresci, o quanto mudei, perguntará se tenho filhos e se
casei. O meu vizinho, como exemplo, tenta RECONHECER, pois um dia ele me
conheceu. Um dia eu fui exatamente aquilo, um dia, nós fomos exatamente aquilo:
a criança da rua e alegre; o extrovertido, o introvertido.... Difícil é quando
ainda, depois de adultos, voltamos a tentativa de reconhecimento não mais
atrelado a uma cronologia temporal, apenas, mas quando dentro dela, existem
inúmeros sentimentos e, que eles já não falam mais sobre nós.
Aquelas lindas palavras, aquele gesto carinhoso e saudoso
não falavam mais de mim. A minha essência já dava sinais de quem eu me tornaria,
isso ele estava certo, e eu não poderia negar. Não era mais a mesma. Eu ainda admirei a
sua foto, ainda tentei buscar alguma coisa que me ligasse, que estivesse ainda
resistindo ao tempo, mas a árvore tinha se tornado infrutífera. Nada em mim
era fértil, e eu logo mudava de sentimentos, ideias, paixões. O amor era grande
demais e não cabia no meu peito, esse era o problema.
Pensei muito antes de qualquer ação. Não sabia se responder
era apropriado, até porque o e-mail havia chegado fazia dias e eu não tinha
visto. Também, eu não sabia que ao responder o e-mail poderia estar criando uma
travessia entre nós, quem sabe, até um novo enlace? Pensei em ficar em
silêncio, porém, aquele e-mail escrito com tanto esmero e amor não poderia
ficar sem resposta. Ora! Eu havia conhecido aquela pessoa! Ela fazia parte de
minha vida! Eu havia escrito aquela história, e eu não poderia renegá-la. Eu
era aquela história, de certo modo, era ainda. Pensei o resto da madrugada
inteira, mas em cinco minutos, movida pela impulsividade, eu lhe disse: Caio,
meu eterno amigo, pode não ser tarde demais.
_ Eliane Vale
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
A MULHER
Não era a beleza;
Não era o corpo estremecido;
Não eram os gestos;
Não era o andar.
Não era a selvageria
Não era o corpo estremecido;
Não eram os gestos;
Não era o andar.
Não era a selvageria
Não era o impulso
Ou a corrida
Nem o salto
Nem a subida
Ou a corrida
Nem o salto
Nem a subida
Nem a dor
Nem a partida
Nem o vai-e-vem
Nem a pressão concedida
Nem a partida
Nem o vai-e-vem
Nem a pressão concedida
Não era a energia
Nem a fugida
Nem o mal disfarçado
Nem o bem à luz do dia
Nem a fugida
Nem o mal disfarçado
Nem o bem à luz do dia
Nem ao menos era santa
Ou maldita
Era outra coisa... Outra coisa!!!
A COISA!!!
Ela ainda não tinha nome;
Mas me engolia.
Ou maldita
Era outra coisa... Outra coisa!!!
A COISA!!!
Ela ainda não tinha nome;
Mas me engolia.
Eliane Vale.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Cheia de si
Por que repousas em mim um olhar distante de desdém?
Tu sempre foste fria e cheia de si, não é mesmo?!
Nem podes te queixares de que vives solitária e contemplativa.
Fica-te com teu brilho, majestosa emoldurando o céu
Eu, de minha parte, quedarei-me bem aqui
embaixo
inerte
pequeno
anoiteço-me e só.
por Ana Karla Farias.
domingo, 22 de novembro de 2015
Os dados de Deus.
Eu,
agora há pouco, estava em um lugar.
Estava junto a amigos.
Lá, minha presença exercia um impacto, uma força, uma alteração
naquele ambiente.
Mas, agora, naquele ambiente, estou morta.
Sou ausência.
Nada tenho parte.
E como saber se minha ausência exerce ainda alguma
impressão?...
Em
alguns momentos, a nossa ausência causa. A nossa ausência,
em
alguns momentos, é ativa!
Em outros momentos, é um nada, o nada!!!
Mas
eu, agora, já causo ou não causo em outro momento, em outra
pessoa
.
Agora, eu causo aqui; agora, causo em nós.
Agora, eu causo aqui; agora, causo em nós.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
TUDO É UMA QUESTÃO DE (IM) PORTA
Eu que sempre fui um sujeito esdrúxulo, desses que após o término de uma aula, corre para enclausurar-me no banheiro por receio de não saber como portar-me em meio a presenças humanas, dei para personificar objetos.
Um dia, estava travando um diálogo com uma porta. Ela parecia tão viva que nem atentei para a estranheza do meu ato, e aí vieram outro dia e mais outro, mais outro...Até se tornar uma atividade habitual. Pensei, quiçá, em procurar a ajuda de um analista. Aquela mania, loucura, como queiram, apossou-se de mim de tal forma, que tratei de enxergar o mundo sob a ótica reduzida e bidirecional, de que há dois tipos de pessoas e só- as que abrem e fecham portas.
Quantas horas a fio, dediquei-me com alvoroço em contemplar portas e mais portas. Era uma infinitude delas- brancas, de cor, envelhecidas, polidas, envernizadas. Comecei por examinar a porta do quarto, depois a do banheiro, da cozinha, da sala de estar, e quando dei acordo de mim, estava eu quase sendo apontado como um sujeito de índole moral dúbia, de tanto que fitava estático, imóvel, as portas da vizinhança. Passei a vegetar-me, a objetificar-me, não mais reconhecia minha condição humana.
Quantas vezes, você leitor que agora me julga tresloucado, também não agiu feito porta? E quando fechou, por puro egoísmo, as portas para um amigo que tanto necessitava de oportunidades de mudança? E em quantas ocasiões, perdeu amores por receio de escancara-se a outrem? De invadirem-lhe seu mundo de ostra? Elucubrei com meus botões, ou melhor, com minhas dobradiças e maçaneta, felizes do que aí estão no mundo como portas abertas.
Ana Karla Farias.
sábado, 24 de outubro de 2015
EU NÃO SOU FELIZ EM PEQUENAS OU COM POUCAS COISAS
É impressionante o quanto passamos a vida inteira repetindo
frases, palavras sem sentido algum. Coisas que não possuem nexo, mas que soam
igualmente a axiomas, quase. Sentei-me para o ato da escrita, peguei uma taça
de vinho, geralmente a que me acompanha às Sextas-Feiras, e estava disposta a
escrever sobre o quanto somos capazes de ser feliz em pequenas coisas, com
poucas coisas.
De súbito, um sentimento questionador me invadiu e, antes de
eu refutar uma verdade que me escravizava há muito tempo, pesquisei em alguns
dicionários o significado para três palavras. Abaixo, deixo-as para análise:
Pouco: em pequena quantidade;
Pequeno: que é feito em limitada escala;
Felicidade: êxtase, intensa alegria.
Depois dessa rápida pesquisa, o que percebi foi uma
incongruência milenar. Não, eu não era feliz em pequenas coisas; eu não ficava
feliz com pequenas coisas. As coisas que me deixavam feliz não eram nem
pequenas, nem poucas. Elas eram tão completas, tão integrais, tão intensas e
extensas dentro de mim que jamais poderiam ser consideras de pouca quantidade.
Essa era a incongruência a que me referia. Repito: não havia pequenez, não
havia apoucamento em tudo que me fazia feliz ou que me faz feliz.
Mas, não posso negar, e era esta a divergência que havia
entre eu e o mundo, que o que me fazia feliz, intensamente transbordada eram
situações simples.
O que me fazia feliz, intensamente feliz era compartilhar qualquer
sentimento, qualquer situação que me arrancasse um choro de emoção, uma alegria
inesperada, um estado espiritual de puro agradecimento pela vida e por estar
viva, também a paz interior. Não havia nisso nada de limitado, escasso. Tudo
era dado em esborrotamento. Tudo
derramava-se!
Reparem que a felicidade não é tímida, não pode ser tímida.
A felicidade, um sentimento de intensa alegria, não pode caber em uma coisa
menos do que ela. Prestem bem atenção: o mundo é feito sob leis universais
perfeitas e, entre elas, não existe vazão do que é grande pelo o que é pequeno.
Já lhes disse: o maior não cabe no menor, não cabe! Para brotar o que é grandioso,
originalmente o fruto também virá de algo grandioso, pode ser simples, na
maioria das vezes é simples, porém não é pequeno, reles. E simples, meus caros
amigos, quer dizer apenas que não é preciso que seja muito engendrado,
complexo, exclusivo. Percebam que não existe uma relação do que é simples com o
que é reles, baixo ou desprezível. A definição do que se é simples é apenas dizer o que é natural, comum e
potencialmente encontrável nas mais variadas situações. Vejam que o valor do simples é justamente o fato de ele ser
possível a todos nós, a qualquer
momento.
Diante disso, percebi que era impossível eu ser feliz em
pequenas coisas. Sou indisposta a coisas
pequenas e poucas, mas as simples, as inocentes, as singelas, as comuns são as
que me comprazem.
Eliane Vale
Eliane Vale
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