QUEM SOMOS NÓS?

O “Entendeu ou quer que eu desenhe?” fora idealizado por Eliane Vale, servidora pública e acadêmica de Contábeis e Ana Karla Farias, jornalista por formação e acadêmica de Direito, tendo como intuito transportar a ideia de um sarau, que congrega diversas expressões artísticas, para um blog. Haja vista, que em nossa cidade, Caicó/RN, há uma carência de meios de comunicação atrelados à cultura, e sobretudo, à literatura, esta tão imprescindível para a natureza quixotesca do homem. Amigas desde a infância, colegas de escola, eu (Ana Karla) e Eliane construímos uma amizade alicerçada no mármore, que nem os tempos e distâncias apagam. Nosso apreço pela literatura nasceu em meio às idas assíduas à biblioteca de uma escola pública, da qual éramos alunas. Quanto mais ficávamos rodeadas por aquele acervo, mais intenso era o desejo de ali permanecer. Foi, então, que descobrimos o reino fascinante das palavras. Era preciso conviver com o taciturno e solidão de presença humana para ouvir o convite que as palavras, ali estáticas, impressas nos livros, balbuciavam. Como bem disse o poeta maior, elas provocavam: - “Trouxeste a chave?”. Depois de nos tornarmos leitoras, passamos a nos aventurar na escrita. E novamente as palavras nos instigavam a desafiar o papel em branco: “- Aqui estão os poemas que esperam ser escritos. Trouxeste a chave?”. Sucumbimos à tamanha sedução. Depois dos rumos distintos que nossas vidas tomaram, moramos distantes, perdemos o contato. Mas, a literatura uniu-nos novamente. Desta feita, com o objetivo de alimentarmos de versos, desenhos e sonhos, este blog. Agora, lançamo-lhe o desafio, caro internauta, trouxeste a chave?

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Penetra-me



      Com o livro sobre o seu peito, dormia aquele corpo, esquecido de suas preocupações habituais do dia. Lá, Davi estava seminu.  Sempre foi hábito da mulher amada permanecer ao som de músicas que lhe dessem o estado de espírito necessário para suas reflexões.  Com o vento forte que soprava da janela, deixou o copo de vinho sobre a mesa e dirigiu-se até o quarto. À porta, percebeu a pouca luz da lua que recaía sobre o corpo dele. Antes de fechar a abertura material que conduzia aquela brisa levemente fria, cuidou para pegar o objeto de leitura do seu amado. O toque leve sobre seu peito, acordou-o. Agora, havia mais uma nova chance para o amor.

   


     Júlia, envolta de seus cabelos negros e longos, com roupas minúsculas que apresentavam a sua volúpia natural, sem nenhum recurso estético, era uma mulher sensual e dada a um homem de igual completude. O toque dela sobre o peito dele ascendeu-lhe o desejo de amá-la. Tão de prontamente, a feroz mulher penetrou-lhe o seu olhar, que traria qualquer deus ou santo para arder em seu purgatório úmido. Os lábios foram levemente encostados e passaram a ofertar beijos carnudos, ardentes, sequiosos, em que suas línguas começavam a dançar com cadência e ritmo. Davi recebeu toda aquela gratuidade de devassidão e a tomou pela cintura, pondo-a sentada sobre ele, de frente, com parte da blusa já expondo os seios e cabelos cobrindo parte da face, reluzindo a ursa, a indomável mulher. 


     Júlia beijou os lábios, o pescoço, e com sucção provocativa e olhos implacavelmente metidos nos dele, foi descendo, ao ponto que os seios cumpria o papel de roscar sobre o corpo seminu do seu homem.  Desceu e quis experimentar o gargalo daquele sexo, indo ao êxtase de sucção, mordidas e fricção manual. Sabia o que fazia... e COMO SABIA! Enquanto ela o saboreava, ele pouco conseguia pensar, ordenar desejos. Seu corpo respondia aos toques com pequenas convulsões de prazer, verborragia pornográfica e ditatorial, ao mesmo tempo que tinha vontade de dizer-lhe que não somente ela é que iria fazê-lo de escravo, subalterno.
       Com isso, retirou-a do gargalo com a mão agarrada na nuca. Conduziu-a para que se mantivesse deitada de costas, levemente inclinada, ao ponto que lhe pudesse tirar a tímida calcinha e poderia saborear aquela nudez.  Havia sofreguidão, ansiedade para que se visse desnuda e preenchida. Davi, deu de uma só vez o que ela merecia por ter se comportado tão impiedosamente, minutos antes.
Aiii...!
Ambos gritaram no ar. 
     
      Seria a vez dela, trepidar sobre brasa pontiaguda. Sentiu as duas mãos firmes a lhe segurar pela cintura e a lhe dar ordens de dança e balanço, e OBEDECIA, como adorava aquele tipo de obediência voraz, faminta e exploradora. Recebia os botes de bom grado e devolvia-os com segundos de aprisionamento. É, ela não seria tão de graça, é de sua natureza contra-atacar.



     Cada vez mais inclinada, sedenta e desafiadora, oferecia-se e ele, seduzido e penetrado na agudeza daquela carne, enfeitiçado por aquela bifurcação, gladiava com ela numa velocidade feroz que inundava seus corpos de suor, até que:
Isso amor, agora, vai...!!!!!



    Foi uníssono o ápice da paixão.
(Eliane Vale).


Do amor não correspondido




Seus olhos me fitam de uma forma que me deixam nua e que meu corpo sente arrepios que tento esconder; sente impulsos que prefiro combater. Como você pode me dizer tanto e partir?

Como pode dividir tanta intimidade comigo e partir para longe e me deixar nesse deserto sem sua presença?Não sou a mulher que se apaixona. Não sou a mulher que ama. Meu medo é uma grande ponte  necessária para que eu a atravesse, para que eu chegue a qualquer um ou qualquer um chegue a mim. Mas, veja!

Você atravessou a ponte e estou aqui, do outro lado sozinha.O que fazer com o nada que existe???O que fazer com o que você não me disse, não me fez?É sua inatividade que me machuca, só isso.

Eliane Vale.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Aquele par de olhos


Sempre andava de modo atarantado e os meus passos eram difíceis de serem acompanhados.
Olhos fugidios, não miravam um ponto inerte.
Amor era uma definição dos poemas drummondianos,
escapavam ao significado dos dicionários.

Nunca o sentira, por isso julgava mesmo ser algo impalpável ou uma dádiva para poucos.
O coração era coisa complexa, nele havia tantas emoções, desilusões e dores, que não haveria mais espaço nem para o que cabe no caixinha de costura.
Era um turbilhão de sentimentos que não se assemelhavam a amor,
pelo contrário eram resultantes de uma vida cotidiana de muitos pesares e afazeres.

Até que certa feita, quando o céu se cobrira de um manto alaranjado, fim de tarde que era, andando Cecília no mesmo ritmo apressado, na ânsia de voltar ao esconderijo da casa,
deparou-se com um par de olhos tão inebriantes que mais pareciam pedras de valor oneroso.
O modo atordoado tal como ela caminhava de costume quase a fez esbarrar naquele moço que correspondeu ao seu olhar com um sorriso tão suave como pétalas de rosas.

Foi quando ficou ela estática, mesmo tendo de pegar o próximo ônibus a caminho de casa, mas que importava se o transporte partisse?
Naquele instante era como se tudo ao redor houvesse paralisado e os ponteiros do relógio cessassem de bater o velho tic-tac.
Não pôde se aproximar daquele belo par de olhos, mas o guiou,
estática no seu canto, até que ele seguisse seu itinerário e desaparecesse ao longe, onde visão da moça não mais pudesse alcançá-lo.

Ali naquela tarde alaranjada, descobriu Cecília que em vão  tentava descobrir um conceito para o amor,posto que não há como entendê-lo,
descobrir suas razões de existir, mas tão somente se pode senti-lo.
Ainda que ele tenha a fugacidade de um cometa ou não se personifique num rosto, o amor é um estado de espírito.

Mesmo que seja dado de graça ou à uma profunda ingratidão como mencionava o poeta mineiro,
ama-se porque se ama, destituído de qualquer racionalidade e ponto final.
Até hoje ela sai às ruas, mas desta vez, com passos curtos e leves,
à espera de que o amor nela esbarre novamente.

Sem explicação, inesperado e semeado ao vento.
Por falar em vento, essa brisa vespertina lhe traz uns arrepios, são reminiscências de um sentimento miraculoso.

Ana Karla Farias.

domingo, 20 de setembro de 2015

Palavras



Ferem de modo fulminante e a dor chega a ser pungente, mas além da face sórdida, do gosto amargo, as palavras quando proferidas podem fazer pés sobrevoarem às nuvens e reabilitar moribundos.

O poeta mineiro já alertava para suas artimanhas, elas têm mil faces secretas sob a face neutra.

Para descobrir é preciso aceitar o desafio de penetrar no seu reino.

Assim como moedas e como o ser humano, as palavras possuem dois lados.

Um deles pode ser dócil, curar feridas, levar luz onde há escuridão tenebrosa, revigorar
um tronco murcho, fazendo-o florescer em terras secas.

 A velha rosa que mesmo sem beleza brota do asfalto.

Mas ainda assim é uma rosa com toda sua doçura. 

O outro lado, ah esse, pode ser impiedoso.

Não ameniza o frio gélido e nem ilumina.

É preciso que as gritem e as expressem pelos cantos para que as palavrinhas
saiam do seu estado estático e de sua mudez.

Quietas e reprimidas como no dicionário, elas não causam impacto, estragos ou absolvição.
Bastando saírem do papel ou do pensamento para ganharem liberdade, algumas quando muito profundas se eternizam, pois ficam infinitamente gravadas no coração.

Ana Karla Farias.

Alunos da UFRN em Caicó desenvolvem projeto que leva arte e cultura à universidade

Estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), do Centro Regional de Ensino Superior do Seridó (CERES), juntamente com o Laboratório Internacional de Movimentos Sociais e Educação Popular (Lampear), estão realizando um projeto lúdico-cultural com a finalidade de tornar o espaço universitário, também um local de manifestação das diversas formas de arte. “Atualmente, algumas alunas e alunos do CERES estão organizando saraus de arte e cultura e, dessa maneira, procurando iluminar nossa universidade com o brilho de inspirações de vida. Estas iniciativas não são apenas louváveis sob o prisma de novos olhares sobre o conhecimento, mas imprescindíveis para os que almejam exercitar a própria arte de viver. Acredito que enquanto a maioria da comunidade acadêmica continua adormecida nas pulsões sombrias de morte - dinamizadas pela cultura de massa medíocre - existem grupos despertos para o amor, para a liberdade e para a emancipação social através da auto-organização da cultura popular”, explicou o professor e coordenador do Lampear, Fernando Bomfim.

A iniciativa do Lampear em realizar espaços de cultura e confraternização entre a comunidade acadêmica, foi recepcionada pelos alunos do curso de Direito de Caicó, que fizeram brotar o projeto “Os lírios não nascem da lei”. O intuito do grupo é desconstruir a imagem de que os acadêmicos de Direito só se interessam pela letra fria da lei. “A justiça não pode ser mecanizada, a ponto de um jurista apenas se ater a aplicar a Lei.
O profissional do Direito é aquele que luta para a concretização da justiça, de forma a solucionar os problemas da sociedade, sem olvidar situações únicas do indivíduo.
A poesia, assim como a justiça não generaliza, não discrimina.
Então " Os lírios" buscam na poesia, a sensibilidade necessária para se fazer justiça”, afirmou a estudante de Direito Marcela Cavalcante. Opinião compartilhada também por Kattarine Lucena, aluna de Direito. “O projeto dos lírios é uma alternativa à letra fria da lei e, sobretudo, uma tentativa de incentivar a cultura no nosso espaço acadêmico”, pontuou.

Evento teve participação de trovadora da Academia de Trovas do RN


O sarau do projeto idealizado pelos alunos de Direito, intitulado “Os lírios não nascem da lei”, conjuntamente com o sarau do Lampear ocorrem semanalmente na própria universidade, reunindo música, declamação de versos e exposição de desenhos artísticos e pinturas. Na última sexta-feira (18), às 18h, o evento contou com a participação da trovadora caicoense e membro da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, Mara Meline Garcia. A trovadora foi vencedora de concursos locais, regionais e nacionais de trovas, dentre os quais, o de Nova Friburgo/RJ, capital nacional da trova, de Curitiba e Cantagalo/RJ. 

O estranho que habita em mim




                             
De repente, numa manhã qualquer, acordei.
Quando fitei meu rosto no espelho como de costume, 
não vi minha imagem ali refletida.
Eram pares de olhos assustados, um rosto esguio 
e o gosto na boca que a imagem não revelava,
 não era doce nem amargo, era tão-somente insípido.

Onde estava perdida minha identidade?
Em que espelho? Em que tempo?
Só agora me dei por essa mudança.

Quando a aurora preludiu um novo amanhecer, 
caminhei a passos lentos e incertos em direção ao espelho. 
Estava eu temeroso com a imagem que o objeto mostrar-me-ia.
Meu corpo estremeceu.
Vislumbrei, desta feita, o sorriso de um garoto faceiro
A alegria que resvalava de seu semblante era tanta,
que quase conseguia ouvir o burburinho de sua gargalhada.
Era a minha imagem, de um sorriso que esbocei na infância.

Eu, enfim, reinventei-me
e foi em meio ao distanciamento entre mim e minha essência,
depois de tanto me perder, me subtrair, me amputar,
que eu me reencontrei.
Durante muito tempo, portei-me feito máquina e é aí que a alma padece.


(Ana Karla Farias).

sábado, 19 de setembro de 2015

MEU LIXO


     





             
            Faz tempo que reluto em lhes dizer o que digo. Eu sei que sou linguaruda e já disse isso, de modo que todos vocês sabem que sou. Mas ao mesmo tempo que sou linguaruda, digo-lhes também que não digo tudo. É, eu não digo tudo. Porque tem coisas que não dizemos tudo, tem coisas que não são traduzidas, codificadas na escrita. Eu sei que vocês têm coisas inauditas, insonoras. Pois bem. O que me perturba é exatamente isto: aquilo que não dizemos.  Mas hoje, como não saiu de meu pensamento, digo-lhes isso porque estou em busca da solução para o que sinto e, como sei que vocês são bem mais espertos do que eu, bem mais inteligentes do que eu, penso que ao cabo disso que digo, receberei a solução. O caso foi o seguinte.
             
             Hoje eu varri a sala. Varri a sala como faço sempre, varri a sala como vocês varrem a sala de vocês. Vejam, é coisa muito cotidiana varrer a sala, todo mundo varre a sala e nisso, não há nada de esquisito, esquisito para alguns é não varrer a sala. Acho que é isso, como dizem, o grande X da questão. Nunca vemos o cotidiano como algo extraordinário, excêntrico, fabuloso, novato. O cotidiano, por ser cotidiano, é sempre algo muito comum, fácil, reles, sem importância e, com isso, não vemos que, o cotidiano pode guardar em si, algo terrivelmente ou não, também extraordinário. Se chegarmos mais perto, bem mais perto, o cotidiano deixa de ser cotidiano, ele não é tão simples, ele pode ser mais complexo, porque se esconde através de uma capa grossa de normalidade quando, na verdade, nunca fora. Compreendem o que digo?

            Pois foi isso que aconteceu. Eu varri a sala. E não sei o que aconteceu, mas eu juro a vocês que eu varri exatamente igual a todas às vezes que eu varro, eu não varri diferente, não usei uma vassoura nova, ou algo diferente, apenas varri, simples, comum e cotidianamente. O que houve foi que, quando eu peguei o cabo da vassoura e, em seguida, guardei-a por trás da porta, ocorreu-me algo inusitado. Eu não conseguia guardar direito a vassoura. Naquele exato momento, fui acometida por uma profunda inquietação. Logo eu que, sempre varria a sala e colocava o lixo debaixo do tapete, eu que, fazia isso sempre sem ao menos perceber ou sentir qualquer incômodo, agora, não sei por que agora estava incomodada com aquilo...              
 
         Por que estava incomodada com aquilo? Por que o lixo que eu acabava de empurrar debaixo do tapete me incomodava tanto?  Parece que o que eu havia colocado debaixo do tapete era meu. Eu, parada perto da porta e com olhar direcionado à sala, fitava o tapete e imaginava a quantidade de lixo que eu tinha posto debaixo daquele tapete. Muitas indagações me vinham à cabeça, inúmeras! Pensava eu que, será que somente eu coloco lixos debaixo dos tapetes? Será que somente eu varria a sala? Por que eu somente varria a sala? Qual a importância da sala? E aquele pensamento foi ficando cada vez mais profundo, cada vez mais foi se avolumando como se me levasse a um buraco negro, escuro. Eu continuava parada, estática. Comecei ainda a pensar que se eu varria somente a sala, então, decerto outros lixos deveriam existir na casa. CLARO!!! Havia outros lixos na casa, talvez muito mais encrustados, densos e difíceis. Como eu nunca percebi isso? Como??? O que estava acontecendo comigo naquele exato momento??? Teria alguma explicação???

         Minhas divagações continuavam ao passo que minha inquietação crescia porque, antes, eu não tinha conhecimento do lixo, eu sabia que era lixo, mas eu não sabia da importância do lixo, eu não sabia a razão de eu o colocar debaixo do tapete e, pior, eu não tinha me dado conta que havia lixos em outros lugares da casa que nem eu mesma, dona e reprodutora dos mesmos, sabia!!! Era muito grave toda aquela descoberta! Tão grave que, por mais que meu medo fosse estratosférico, eu precisaria me aproximar do tapete, do lixo que estava bem ali em baixo, eu não tinha escolha!!! Eu sabia a existência do lixo e eu precisava fazer alguma coisa!!!
         
          Respirei fundo e fui me afastando da porta, lentamente. Meu coração ia disparando cada vez mais em que eu chegava perto do tapete, minhas mãos iam ficando trêmulas e suadas. Agora, eu estava bem perto do lixo, bem perto. E o grande momento, talvez o grande momento, depois da descoberta dele, fosse o que estava para acontecer: eu precisava levantar o tapete e encará-lo. Permaneci ereta na sala. O meu indicador e meu polegar se ajuntaram para pegar a ponta do tapete e, como se eu estivesse a pegar em algo muito nojento e asqueroso, assim fiz: levantei a ponta do tapete.

             Eu gostaria muito de descobrir se vocês, bem mais inteligentes e espertos do que eu, já fizeram isso, já levantaram a ponta do tapete onde vocês guardam seus próprios lixos. Eu não estou desafiando ninguém a fazer isso. Entendam-me. É que, quando eu faço isso, eu me sinto muito sozinha, eu não ouço que ninguém diga que levantou a ponta do seu próprio tapete ou se, varreu seu lixo para debaixo do tapete. Ninguém me conta sobre essas coisas. Daí, eu suspeito que não me contam ou eu não sei a existência de que outras pessoas façam isso porque simplesmente elas fazem sozinhas! É isso, elas não contam a ninguém que varrem apenas a sala, elas não contam a ninguém que colocam todo o santo dia o lixo debaixo do tapete e que, eu somente lhes conto isso porque sou prolixa, apesar de também não contar tudo, e conto tudo do pouco. Veja, eu estou contando por pura sorte mesmo, porque, igualmente a vocês, eu também ficaria aqui, sem ninguém saber.
            O que ocorreu foi que quando levantei a ponta do tapete, eu vi algumas coisas absurdas e outras não. Tinha muito lixo esquecido lá, coisas que nem eu mesma sabia de sua existência! Tinha lixo para tudo que era gosto e governo. Eu estava com muito medo, eu juro. Um medo muito grande de encontrar coisas das quais eu não gostaria...  E adivinhem? Foi o que mais encontrei. Ao passo que me aproximava daquela observação medonha, abstrata e estranha, vi que existiam lixos que apesar de eu os ter colocado lá, eles ainda me acompanhavam. Como? Eu tinha guardado muito sentimento debaixo daquele tapete. Muita coisa que me deixava triste, amarga, decepcionada, AM- PU - TA - DA. Todos os lixos, estranhamente quando guardados, deixam-nos amputados, essa é a palavra. É que eles estão debaixo do tapete apenas fisicamente, mas existe uma parte deles conosco. Nós somos tudo aquilo que deixamos de ser ou de fazer por causa do que existe debaixo do tapete. O que existe debaixo do tapete é muito perigoso, é um terrível inimigo, ele pode acabar com sua vida, ele pode impedir que você seja quem você é, justamente porque você colocou lá, esquecido. Percebam que, o lixo é lixo não porque necessariamente seja sujo, ou sem valor. O lixo pode ser lixo porque se torna esquecido, desvalorizado. É uma parte de você, SIM, é uma parte de vocês lá, jogada às traças, às baratas. E DIGO MAIS, VOCÊ NÃO VAI SER FELIZ ENQUANTO NÃO LEVANTAR O TAPETE E TIRÁ-LO DE LÁ. VOCÊ NÃO VAI. A SUA ESPERANÇA DE FELICIDADE NESTA VIDA É APENAS UMA: SER INTEGRAL.

     Fui a mim mesma incentivando a levantar o tapete, coisa que não é fácil. E acreditem: quanto lixo ainda possuía sabor, cheiro e cor! Quanto! Era incrível!! O medo, de primeiro momento, foi dando espaço a um prazer, a um saudosismo, a um momento de pura identidade, de definição, de ser eu, era eu agora, totalmente. Eu era lixo!!! Também era aquele lixo!!! Eu tinha me esquecido de ser quem eu era e para que vim ser quem sou. Agora, era preciso somente ajustar alguma vassoura. Agora, eu estava disposta a varrer a casa inteira e, muito feliz por isso! Eu estava completamente disposta, alegre, satisfeita por sair varrendo e colocar o lixo, bem ali no meio da sala!!! Destruam os tapetes!!! Destruam-nos!!!! Quero todos os lixos na sala, bem no meio, para que o visitante de minha casa veja que, agora, eu varro é pra fora.


_ Eliane Vale