Era impressionante! O que me separava dele eram irreparáveis
sete anos, sete anos! Muitas coisas ´´mudaram``, mas nada tão drasticamente
quanto a mim. O email, que pensava encontrar uma antiga pessoa, dizia coisas
assim: ´´ Faz muito tempo que estou pensando insistentemente em você, muito
tempo. Pode parecer insanidade minha, mas o pensamento sobre você me assalta de
uma forma, digamos assim, quase violenta que o que me resta é buscar
alternativas que me façam esquecê-la, tentativas vãs são o que são. Eu não
sabia como você reagiria, aliás, nesse exato momento que escrevo isso, continuo
sem saber, no entanto, prossigo com essas linhas, porque já não posso fugir de
mim mesmo. Lembro-me que você, desde daquela época já dava sinais de ser quem
viria a ser... Você dizia: é possível
fugir de muita coisa, exceto de nossa própria essência. Percebo, então, que a
sua essência não foi posta de lado, minha amiga. Percebo, também, que no passado,
para você, eu fiquei. Eu já não sei se falo com a mesma pessoa ou com uma nova
pessoa, pois o tempo faz dessas coisas, no entanto, apesar de todos esses anos,
e com todas as minhas reiteradas tentativas de esquecimento, digo-lhe,
finalmente, que você não é uma saudade, pois se assim, eu dissesse, diria que
você passou e ficou na lembrança. O problema é justamente o contrário! Você,
apesar de todo esse tempo é PRESENÇA! Eu só não sei se já cheguei tarde
demais...``.
Não nego: estava assustada. Assustei-me por dois motivos: a
surpresa de ainda permanecer viva naquele homem deixava-me intrigada. Eu, em
hipótese alguma, poderia imaginar que àquela madrugada, a minha caixa de e-mail
me pregaria essa peça; o outro motivo era que ao longo de um e-mail com
incríveis cinco páginas, isso mesmo, cinco páginas, poderia haver menções,
fatos e uma pessoa que eu não mais reconhecia: eu. Parecia-me que o tempo tinha
tratado de fazer o que ele consegue fazer melhor: esquecer.
Eu li tudo aquilo, recheado de detalhes e recordações, mas
me perguntava de quem se tratava, pois, parecia que aquilo não se tratava mais
de mim, não era sobre mim que havia naquele e-mail. Eu não me via mais com
aquele sentimento, eu não mais me via com aquele coração. Eu tinha sido
acometida gravemente por uma doença que o havia roubado e de lá pra, conseguia
viver sem ele.
O tempo liga e quebra pontes, essa era a questão que me
revirava naquela madrugada natalina... O tempo quebrava pontes.... Refazia
outras... E nisso, exibia a artimanha de nos reconhecer e conhecer a nós diante
dos outros. E naquele momento, o que eu desejava de todo coração era saber se
ele ainda me reconhecia ou se me conhecia. Eu já não sabia se ele poderia me
reconhecer, conhecer.... Minha incógnita era: o que havia sobrado de mim de
setes anos atrás? O que havia sobrado? Dei-me por perceber que a casca exterior
havia ressecado. O mundo e o tempo trataram de nos colocar uma ponte. Travessia?
Não. Essa não era a questão.
Concluí que quantas e quantas pessoas passam por nós, isso
mesmo, passam. E ficam lá atrás, esquecidas, relegadas ao tempo e aos fatos que
as envolveram. Quantos de nós já não são as mesmas pessoas para tantos outros,
e não somos até para nós mesmos. Decerto, se eu encontrar meu antigo vizinho do
tempo que eu tinha dez anos, muito provavelmente ele não me reconhecerá e dirá
estupefato o quanto cresci, o quanto mudei, perguntará se tenho filhos e se
casei. O meu vizinho, como exemplo, tenta RECONHECER, pois um dia ele me
conheceu. Um dia eu fui exatamente aquilo, um dia, nós fomos exatamente aquilo:
a criança da rua e alegre; o extrovertido, o introvertido.... Difícil é quando
ainda, depois de adultos, voltamos a tentativa de reconhecimento não mais
atrelado a uma cronologia temporal, apenas, mas quando dentro dela, existem
inúmeros sentimentos e, que eles já não falam mais sobre nós.
Aquelas lindas palavras, aquele gesto carinhoso e saudoso
não falavam mais de mim. A minha essência já dava sinais de quem eu me tornaria,
isso ele estava certo, e eu não poderia negar. Não era mais a mesma. Eu ainda admirei a
sua foto, ainda tentei buscar alguma coisa que me ligasse, que estivesse ainda
resistindo ao tempo, mas a árvore tinha se tornado infrutífera. Nada em mim
era fértil, e eu logo mudava de sentimentos, ideias, paixões. O amor era grande
demais e não cabia no meu peito, esse era o problema.
Pensei muito antes de qualquer ação. Não sabia se responder
era apropriado, até porque o e-mail havia chegado fazia dias e eu não tinha
visto. Também, eu não sabia que ao responder o e-mail poderia estar criando uma
travessia entre nós, quem sabe, até um novo enlace? Pensei em ficar em
silêncio, porém, aquele e-mail escrito com tanto esmero e amor não poderia
ficar sem resposta. Ora! Eu havia conhecido aquela pessoa! Ela fazia parte de
minha vida! Eu havia escrito aquela história, e eu não poderia renegá-la. Eu
era aquela história, de certo modo, era ainda. Pensei o resto da madrugada
inteira, mas em cinco minutos, movida pela impulsividade, eu lhe disse: Caio,
meu eterno amigo, pode não ser tarde demais.
_ Eliane Vale

Que lindo, Eli!!!! Adorei o desfecho pouco previsível. Interessante que o texto que postei agora há pouco, antes de ler seu conto, discorre sobre a essência do homem, da face verdadeira que não se enxerga superficialmente e que o espelho não reflete.
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